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quinta-feira, 13 de junho de 2019

FERNANDO PESSOA





Em 1981 adquiri o livro Fernando Pessoa - Uma Fotobiografia, organizada por Maria José Lencastre, numa edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda e do Centro de Estudos Pessoanos.

No início do anos 80 deu-se a "explosão Pessoa": também em 1981 estreou o filme Conversa Acabada, de João Botelho; em 1982 foi publicada a primeira edição do Livro do Desassossego (com organização de Jacinto do Prado Coelho e recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha); em 1984 José Saramago publica O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Ao folhear a fotobiografia, algo me surpreendeu: em apenas uma das 46 fotografias onde Pessoa está presente é possível vislumbrar (o esboço de) um sorriso - com um ano de idade.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


Hoje, José Saramago faria 96 anos (apesar de ter sido registado com a data de 18 de Novembro) e este ano completaram-se 20 anos da atribuição do Prémio Nobel.
Quem nunca ouviu dizer que uma das características da escrita de José Saramago é a inexistência de vírgulas?
Neste dia, deixo o meu modesto contributo para a confirmação ou infirmação desta asserção. Transcrevo o início e o final dos, talvez, três grandes marcos da literatura saramaguiana: Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e Ensaio sobre a Cegueira.




«D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fose, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-se ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.»

« Encontrou-o. Seis vezes passara por Lisboa, esta era a sétima. Vinha do Sul, dos lados de Pegões. Atravessou o rio, quase noite, na última barca que aproveitava a maré. Não comia há quase vinte e quatro horas. Trazia algum alimento no alforge, mas, de cada vez que ia levá-lo à boca, parecia que sobre a sua mão outra mão se pousava, e uma voz lhe dizia, Não comas, que o tempo é chegado. Sob as águas escuras do rio, via passar os peixes a grande profundidade, cardumes de cristal e prata, longos dorsos escamosos ou lisos. A luz interior das casas coava-se através das paredes, difusa como um farol no nevoeiro. Meteu-se pela Rua Nova dos Ferros, virou para a direita na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em direcção ao Rossio, repetia um itinerário de há vinte e oito anos. Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o da carne queimada. Havia multidão em S. Domingos, archotes, fumo negro, fogueiras. Abriu caminho, chegou-se às filas da frente, Quem são, perguntou a uma mulher que levava uma criança ao colo, De três sei eu, aquele além e aquela são pai e filha que vieram por culpas de judaísmo, e o outro, o da ponta, é um que fazia comédias de bonifrates e se chamava António José da Silva, dos mais não ouvi falar.
São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltazar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.»

MEMORIAL DO CONVENTO, José Saramago, 1982




«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La lata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda.»

«Então bateram à porta. Ricardo Reis correu, foi abrir, já prontos os braços para recolher a lacrimosa mulher, afinal era Fernando Pessoa, Ah, é você, Esperava outra pessoa, Se sabe o que aconteceu, deve calcular que sim, creio ter-lhe dito um dia que a Lídia tinha um irmão na Marinha, Morreu, Morreu. Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo. Meia hora passou assim, ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, É estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre o joelho, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa de cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera da Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar do desgosto de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro, para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.»

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, José Saramago, 1984




O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma da causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.
O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito elétrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do para-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se  que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.»

«De festa foi o banquete da manhã. O que estava sobre a mesa, além de ser pouco, repugnaria a qualquer apetite normal, a força dos sentimentos, como em momentos de exaltação sucede sempre, tinha ocupado o lugar da fome, mas a alegria servia-lhes de manjar, ninguém se queixou, mesmo os que ainda estavam cegos riam como se os olhos que já viam fossem os seus. Quando acabaram, a rapariga dos óculos escuros teve uma ideia, E se eu fosse pôr na porta da minha casa um papel a dizer que estou aqui, se os meus pais aparecerem poderão vir procurar-me, Leva-me contigo, quero saber o que está a acontecer lá fora, disse o velho da venda preta, E nós também saímos, disse para a mulher o que tinha sido primeiro cego, pode ser que o escritor já veja, que esteja a pensar em voltar para a casa dele, de caminho tratarei de descobrir algo que se coma, Eu farei o mesmo, disse a rapariga dos óculos escuros. Minutos depois, já sozinhos, o médico foi sentar-se ao lado da mulher, o rapazinho estrábico dormitava num canto do sofá, o cão das lágrimas, deitado, com o focinho sobre as patas dianteiras, abria e fechava os olhos de vez em quando para mostrar que continuava vigilante, pela janela aberta, apesar da altura a que estava o andar, entrava o rumor das vozes alteradas, as ruas deviam estar cheias de gente, a multidão a gritar uma só palavra, Vejo, diziam-na os que já tinham recuperado a vista, diziam-na os que de repente a recuperavam, Vejo, vejo, em verdade começa a parecer uma história doutro mundo aquela em que se disse, Estou cego. O rapazinho estrábico murmurava, devia de estar metido num sonho, talvez estivesse a ver a mãe, a perguntar-lhe, Vês-me, já me vês. A mulher do médico perguntou, E eles, e o médico disse, Este, provavelmente, estará curado quando acordar, com os outros não será diferente, o mais certo é que estejam agora mesmo a recuperar a vista, quem vai apanhar um susto, coitado, é o nosso homem da venda preta, Porquê, Por causa da catarata, depois de todo o tempo que passou desde que o examinei, deve estar como uma nuvem opaca, Vai ficar cego, Não, logo que a vida estiver normalizada, que tudo comece a funcionar, opero-o, será uma questão de semanas, Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.
A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.» 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, José Saramago, 1995

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AUGUSTO ABELAIRA, TRADUTOR


Augusto Abelaira, além de escritor e jornalista, foi, também, professor e tradutor.

Em 2014 (ou 2015), passeando na Avenida Dom Carlos I, entrei na livraria da Sociedade Guilherme Cossoul e encontrei "O Doutor Jivago", de Boris Pasternak, com tradução de Augusto Abelaira, prefácio de Aquilino Ribeiro e tradução das poesias de David Mourão-Ferreira!!!



segunda-feira, 7 de agosto de 2017

OBRAS DE AUGUSTO ABELAIRA


Desde SEM TECTO ENTRE RUÍNAS, que adquiri em 1979, comprei todas as primeiras edições dos subsequentes livros de Augusto Abelaira (com excepção de ANFITRIÃO OUTRA VEZ, de 1980).

Simultaneamente, fui comprando livros anteriores, em edições antigas ou que foram sendo reeditados. 

Em 2014 tentei e atingi o objectivo de ter as primeiras edições de todas as obras de Augusto Abelaira, de 1959 a 2004 (com a ajuda de alguns alfarrabistas, entre os quais o Adelino Correia Pires).



















domingo, 9 de julho de 2017

HOMENAGEM A CARLOS DE OLIVEIRA


Na sequência da mensagem anterior, recordei-me de uma edição da revista Vértice, dedicada a Carlos de Oliveira, em 1982, ano do 40.º aniversário da revista e da publicação do primeiro livro do autor.

Comprei a revista em fevereiro de 1983, na livraria Académica, em Abrantes.




A revista, publicada no ano seguinte ao da morte do autor, continha evocações e testemunhos (entre outros, de Fernando Namora, Cardoso Pires e Urbano Tavares Rodrigues), estudos e ensaios (entre outros, de Alexandre Pinheiro Torres, José Manuel Mendes, Teresa Coelho Lopes e Vital Moreira), inéditos do autor e uma biobibliografia.

Tinha também uma homenagem poética com poemas de diversos poetas, de onde destaco os escritos por Mário Dionísio e José Gomes Ferreira:


POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

                                                                              (1 de Julho de 1981: morte do Carlos de Oliveira)
                      
                         É hoje o primeiro dia
                         em que há mundo sem ti

                         Esforço-me por entender o sem sentido disto

                        Mas não se pensa o que se chora
                        Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
                        ser para os outros como sempre a vi 

                        Que pode haver agora?
                        Que enganosa miragem?
                        Tu não foste fazer uma viagem
                        Tua ausência não é um intervalo

                        Vai-se indo pouco a pouco o porque existo
                        E nunca mais também sem ti
                        saberei sequer reinventá-lo (*)

                                                                                    MÁRIO DIONÍSIO

(*) Incluído no livro Terceira Idade (poema LXXIII)


POEMA DE JOSÉ GOMES FERREIRA

LÁPIDE
para Carlos de Oliveira


                          Havia na tua Voz a suspeita
                          de um sonho que se deita
                          no sono da realidade
                          - para tornar a verdade
                          mais inverídica perfeita.

                           Não foste como os outros, Poeta,
                           um simples buscador de beleza,
                           mas alguém que o sol completa
                           com o rigor da sombra acesa.

                           Julho 1981

                                                                            JOSÉ GOMES FERREIRA 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

CARLOS DE OLIVEIRA: A PARTE SUBMERSA DO ICEBERG


Decorre desde 18 de março até 29 de outubro, no Museu do Neo-realismo, em Vila Franca de Xira, uma exposição intitulada "CARLOS DE OLIVEIRA: a parte submersa do iceberg", cujo curador é o Prof. Doutor Osvaldo Manuel Silvestre.

Nessa exposição se demonstra que a parte visível do iceberg (a sua obra) tem uma parte submersa extraordinariamente importante e que é revelada por vasta documentação saída do espólio doado por Ângela Oliveira (sua mulher, falecida em 2016) ao Museu do Neo-realismo.

Escreve Osvaldo Manuel Silvestre, em texto publicado na revista Colóquio Letras adiante citada, a propósito do processo criativo de Carlos de Oliveira, que "o espólio revela que o processo, quando completo, percorre as seguintes fases: (i) produção de manuscrito; (ii) versão dactiloscrita do manuscrito (em rigor, versões); (iii) correção sobre o dactiloscrito; (iv) produção de provas tipográficas e correções escritas sobre elas; (v) produção do livro e reescrita sobre o texto do livro impresso." As versões dactiloscritas eram normalmente da responsabilidade de Ângela de Oliveira.

Este projecto expositivo tem associado um programa complementar com iniciativas que decorrem no Museu do Neo-Realismo, na Casa da Escrita em Coimbra, na Casa Fernando Pessoa em Lisboa e na Biblioteca Municipal de Cantanhede.

Por outro lado, foram publicados o catálogo da exposição (com alguns estudos e documentação do espólio) e um livro dedicado a Ângela de Oliveira (sugestivamente com o título de um dos poemas de Carlos de Oliveira e com textos, entre outros, de Gastão Cruz, José Carlos de Vasconcelos, José Fernandes Fafe, José Manuel Mendes, Manuel Gusmão, Margarida Gil, Nuno Júdice e Osvaldo Manuel Silvestre). 








Também a revista Colóquio Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, dedicou o número 195 a Carlos de Oliveira.

De seguida, algumas fotografias da exposição:



Manuscrito de Finisterra.



Finisterra: o original enviado para a tipografia, as emendas para a 2ª edição (a vermelho), as emendas para a 3ª edição (a verde) e as emendas para a 4ª edição (a castanho).



Uma Abelha na Chuva: reescrita sobre o texto do livro impresso.



Retrato de Carlos de Oliveira, por Nikias Skapinakis



Retrato de Ângela, por Gilbey




segunda-feira, 1 de maio de 2017

UMA ABELHA NA CHUVA









Foi o meu segundo romance; no 9.º ano; em 1979/80.
A partir daí, Carlos de Oliveira é um dos meus escritores.




Carlos de Oliveira faleceu com quase 60 anos, em 1 de julho de 1981. 
A sua obra são quatro romances - Casa na Duna (1943), Pequenos Burgueses (1948), Uma Abelha na Chuva (1953) e Finisterra, Paisagem e Povoamento (1978) -, vários livros de poesia reunidos no final num único livro - Trabalho Poético (1976) - e um conjunto de crónicas e artigos compilados em O Aprendiz de Feiticeiro (1971).
O seu trabalho literário foi porém muito mais intenso do que a colheita aparenta. Carlos de Oliveira reescrevia  permanentemente os seus livros, os quais conheceram, por vezes, consideráveis alterações nas sucessivas edições.
Em O Aprendiz de Feiticeiro (1971), pode ler-se:
"Nós, escritores, trabalhamos com palavras. Não nos é lícito ignorar que podem ser uma arma de força terrível ou terrivelmente frágeis. Podem apoucar as verdades ou revelar-lhes os gumes mais finos e luminosos. O nosso ofício consiste em escolher as palavras, utilizá-las no momento exacto, atenuá-las, engrandecê-las, dominá-las. E o que são as palavras? Língua, linguagem, povo, oralidade, escrita, herança literária. A reestruturação da técnica narrativa ou poética tem de conhecer até ao pormenor a matéria de que se serve. Ou então a literatura é uma batata."  


Li Uma Abelha na Chuva mais três vezes, a última em janeiro.
Simplificando, diria que é uma "tragédia neo-realista": nela se conjugam elementos da tragédia, definidos por Aristóteles na Poética (século IV a.C.), com algumas das características do movimento neo-realista (século XX), embora Carlos de Oliveira tenha transcendido este movimento.

Transcrevo algumas passagens do romance, bem ilustrativas da beleza da escrita de Carlos de Oliveira:

"Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de rapousa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empredrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha . Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo dasabrido.
Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. Ameaçava chover. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.
(...)
Fez-se o casamento no Montouro. Conseguia recordar ainda com uma agudeza incrível a onda de sentimentos contraditórios que a arrastara vagarosamente ao altar, a amarga obediência aos pais e o desejo de os ajudar, a curiosidade e o medo, o medo e um pouco de esperança; avançava pelo braço do pai, toda de branco, entre um múrmúrio de órgão e vozes sussuradas; sorria, mas dentro de si ia nascendo um grito, um grito sempre reprimido; a chuva caía, caía com certeza, no passado e agora.
(...)
Levantou-se e tomou o caminho de casa. Na lama onde ia afundando os passos fermentavam as folhas caídas de outubro, oiro conspurcado que os vermes devoravam. Sentiu um arrepio à ideia do seu corpo num desamparo, numa miséria daquelas.
À superfície da madrugada iam correndo sons ligeiros, apenas pressentidos. O distender imperceptível das plantas aliviadas do orvalho, o frémito leve de mil e um movimentos ignotos. A vida ínfima acordava. Depois, principiou o restolho fugidio dos coelhos no tojo, o primeiro e breve alvoroço das asas. Os galos cantavam já soprando a última névoa do amanhecer. Pela aldeia floria o rumor humano, de mistura com o fumo dos lares e o cheiro dos currais abertos. O dia chegava por fim. Olhando para tudo, entrevia apenas no palpitar da terra a intimidade decomposta, os sinais da destruição.
(...)
O reflexo trémulo das chamas batia-lhes no rosto e defigurava-os: os olhos do padre muito mais encovados, a cana do nariz mais torta e luzidia; as bochechas da D. Violante inchadas como se tivesse a boca cheia de ar; uma recôndita sensualidade nos lábios de D. Maria dos Prazeres; a palidez de Álvaro Silvestre a resvalar num amarelo de cidra e idiotia. A D. Cláudia, não: incorruptível, pura, a mesma; não lhe toca o lume (nem a sombra) que os deforma e se ela, alma de mel translúcido, escapa ao sortilégio é que a alma dos outros não tem a mesma transparência.
À primeira vista, o gosto da razão científica tão arreigado no seu espírito não se coadunava muito com deduções desta natureza. No entanto, pensando melhor, tais juízos partiam de argumentos alicerçados no real: manias, doenças, tiques psicológicos e morais, etc. Não eram construções à toa. De maneira nenhuma. Podia bem deduzir o seguinte sem se atraiçoar: vê-los desfigurados é vê-los verdadeiros; todos eles fabricam fel; abelhas cegas, obcecadas.
(...)
A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas."


Trata-se de um romance com o qual dialogaram outras obras posteriores: não pude deixar de pensar nele quando li O Delfim (1968), de José Cardoso Pires, e A Sala Magenta (2008), de Mário de Carvalho.
Curiosamente, Fernando Lopes adaptou ao cinema Uma Abelha na Chuva e O Delfim.

Recomendo, a propósito, o seguinte programa, editado pela RTP:

http://ensina.rtp.pt/artigo/uma-abelha-na-chuva-de-carlos-de-oliveira/

domingo, 30 de abril de 2017

NO CAFÉ


B: Dantes pensava em guardar certos livros para ler quando fosse velho, para dourar a reforma.
A: Tinhas medo que os livros acabassem?
B: Não, mas preocupava-me com a qualidade da leitura futura.
A: E já não te procupas?
B: Preocupo, mas mudei a estratégia: agora procuro ler e descobrir livros que mereçam voltar a ser lidos.
A: Ler os mesmos livros?
B: Não: os bons livros mudam com o tempo, nunca são os mesmos. Mudam connosco.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO


"Descobri" Vinicius de Moraes em 1980, com a notícia da sua morte.

Claro que já ouvira a "Garota de Ipanema", mas desconhecia os seus criadores.






Nesse longínquo ano de 1980 fiquei estupefacto com "O Operário em Construção":


O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Rio de Janeiro, 1959

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. IV, vs. 5-8.


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

FLORBELA


Em 1981 foi publicada a primeira edição do "Diário do último ano", de Florbela Espanca.

Foi escrito entre 11 de janeiro e 2 de dezembro de 1930, último ano de vida de Florbela, que se suicidou em 8 de dezembro.

Tratou-se de uma edição fac-similada, com prefácio de Natália Correia.




Transcrevo algumas passagens, por certo (parcialmente) diferentes das que teria escolhido quando, há 36 anos, o li pela primeira vez:    


JANEIRO 1930
11 - Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros...talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que se vão seguir. Como compreender a amargura desta amargura? (...) «Attendre sans espérer» poderia ser a minha divisa, a divisa do meu tédio que ainda se dá ao prazer de fazer frases. 
(...)
21 - (...) Eu que tenho esgotado todas as sensações artísticas, sentimentais, intelectuais, todas as emoções que a minha poderosa imaginação de criaturinha fantástica e estranha tem sabido bordar no tecido incolor da minha vida medíocre, não esgotei ainda, graças aos deuses, o arrepio de prazer, o estremecimento de entusiasmo, este «élan» quase divino, para tudo o que é belo, grande e puro: flor a abrir ou tinta de crepúsculo, raminho de árvore, ou gota de chuva, cores, linhas, perfumes, asas, todas as belas coisas que me consolam do resto. (...)
(...)
23 - Endiabrada Bela! Estranha abelha que dos mais doces cálices só sabe extrair fel! «Para que quer esta criatura a inteligência, se não há meio de ser feliz?», dizia, dantes, meu pai, indignado. Ó ingénuo pai de 60 anos, quando é que tu viste servir a inteligência para tornar feliz alguém? Quando, ó ingénuo pai de 60 anos?... Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol ou reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no alto, ó ingénuo pai de 60 anos!
(...)
FEVEREIRO
(...)
23 - A vida tem a incoerência de um sonho. E quem sabe se realmente estaremos a dormir e a sonhar e acabaremos por despertar um dia? Será a esse despertar que os católicos chamam Deus?
(...)
ABRIL
20 - (…) Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme, e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver... para viver?
(...)
JULHO
16 - Até hoje, todas as minhas cartas de amor não são mais que a realização da minha necessidade de fazer frases. Se o «Prince Charmant» vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade!
(…)
DEZEMBRO
2 - E não haver gestos novos nem palavras novas!


terça-feira, 1 de novembro de 2016

ABÍBLIAGREGATRADUZIDAPARALÍNGUAPORTUGUESAPORFREDERICOLOURENÇO *


No dia 22 de setembro ocorreu a apresentação pública do primeiro de seis volumes de uma obra única: a tradução para português (com apresentação e notas) da Bíblia Grega, a partir do grego clássico (não do atual), realizada por Frederico Lourenço.


A apresentação aconteceu na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen do Centro Cultural de Belém, com a intervenção do autor e de Francisco José Viegas (editor), Miguel Tamen, José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia.  


A Bíblia Grega nasce no Século III antes de Cristo, em Alexandria, com a tradução para grego do Pentateuco (os primeiros cinco livros do Antigo Testamento), por 72 estudiosos judeus (daí ter ficado conhecida por "Bíblia dos Setenta"). Nos séculos seguintes juntaram-se os restantes livros do Antigo Testamento da Bíblia Hebraica e os livros escritos em grego que não fazem parte da Bíblia Hebraica (14 livros do Antigo Testamento e os 27 livros do Novo Testamento).

A Bíblia Grega era a Bíblia do tempo dos judeus contemporâneos de Jesus e das primeiras comunidades cristãs.

A Bíblia Hebraica, que não tem o Novo Testamento, tem 24 livros que, com outra arrumação, correspondem aos 39 livros do Antigo Testamento segundo o cânone protestante.

A Bíblia Católica, relativamente ao Antigo Testamento, acrescenta ainda 7 livros escritos em grego, num total de 46 livros.

A Bíblia Grega, referente ao Antigo Testamento, tem ainda mais 7 livros. No total, a Bíblia Grega tem 80 livros: 53 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. 

Assim, a principal diferença entre as diversas versões reside nos livros que compõem o Antigo Testamento (para além, obviamente, da inclusão ou não do Novo Testamento).

Deste modo, a presente tradução será a Bíblia mais completa que existirá em português.

Até ao final do século XVIII apenas era permitido pela Igreja Católica ler a tradução latina das escrituras hebraica e grega efetuada no século IV por São Jerónimo.

O primeiro português a traduzir a Bíblia para a língua portuguesa, João Ferreira de Almeida, fê-lo, no século XVII, depois de abandonar Portugal e o catolicismo.  

A partir de final do século XVIII passou a admitir-se a tradução, mas apenas com base na versão latina de São Jerónimo - foi o que fez o Padre António Pereira de Figueiredo.

Apenas na segunda metade do século XX surgiram traduções a partir das línguas originais. Assim, o Novo Testamento foi traduzido a partir do grego e o Antigo Testamento a partir da versão  hebraica.

Porém, o texto integral da Bíblia Grega só agora vê a respetiva tradução para a língua portuguesa. 

Outra novidade desta tradução é o facto de a mesma não ter um caráter teológico ou confessional, pretendendo assumir-se como uma tradução "meramente" linguística e literária, como a da Ilíada e da Odisseia já efetuadas por Frederico Lourenço.

Ocorre-me o início do livro "Cultura: tudo o que é preciso saber", de Dietrich Schwanitz:

«... a nossa cultura é uma Mesopotâmia banhada por dois rios, A fonte de um deles jorra em Israel , ao passo que a do outro nasce na Grécia. E os rios são dois textos centrais que abastecem todo o sistema de irrigação da cultura com histórias ricas em nutrientes.
(...)
Os dois textos centrais da cultura europeia são
- a Bíblia judaica
- o duplo poema épico grego sobre o cerco de Tróia - a Ilíada (Tróia chama-se em grego Ílion) - e a Odisseia, a atribulada e errante viagem de regresso do astuto Ulisses da cidade de Tróia destruída para casa e para junto da sua mulher Penélope.
O autor do poema épico grego foi Homero. O autor da Bíblia foi Deus.»

É belíssima a mensagem de Frederico Lourenço, no Facebook, sobre o processo de tradução dos quatro Evangelhos:

«Traduzir os  Evangelhos

Uma pergunta que me está a chegar por vários meios nos últimos dias é: «como foi o processo de traduzir os Evangelhos? Começou no primeiro versículo de Mateus e acabou no último de João?»
A verdade é que o meu processo de tradução não aconteceu com essa linearidade. Comecei com o Evangelho de Marcos, baseado na ideia, hoje incontestada, de que este é o mais antigo dos Evangelhos, portanto um texto verdadeiramente basilar (que, além do mais, serviu de inspiração a Mateus e a Lucas).
Traduzi os primeiros dez capítulos de Marcos, como que numa tentativa de «tomar o pulso» ao texto; mas, traduzidos esses dez capítulos, decidi que não gostei da minha tradução e optei por passar a outro Evangelho, tencionando voltar mais tarde a Marcos para ver se o meu desagrado se mantinha.
Comecei então a traduzir o Evangelho de João, o que foi uma experiência das mais exaltantes de sempre da minha vida: só que o ritmo de tradução, trabalhando o dia inteiro, era mais ou menos o de um versículo por dia (por causa da complexidade das notas explicativas e da dificuldade das opções de tradução). Quando vi o tempo desmesurado que me levara a traduzir o Capítulo 1 de João, optei por deixar esse Evangelho e dedicar-me ao Evangelho de Mateus, do qual traduzi os primeiros dez capítulos (como no caso de Marcos), mas sempre com um ligeiro calafrio em relação à minha tradução: havia qualquer coisa na tradução e nas notas de que eu não estava a gostar.
Foi então que, numa tarde de chuva torrencial, o destino (ou Outra Entidade Superior) decidiu tirar-me as rédeas das mãos. Eu estava sentado no meu pequeno escritório a olhar para o ecrã do computador, onde estava aberto o documento único chamado «Evangelho de Mateus» com todas as respectivas notas. E eis que devo ter feito qualquer disparate - que já não sei reconstituir - que levou o texto primeiro a desconfigurar-se todo e depois a desaparecer do ecrã. Em pânico, em vez de sair do documento sem salvar, premi o comando para salvar o documento. Eu estava descansado porque pensei que na chamada Dropbox o texto estaria incólume. Mas o que aconteceu foi que perdi, para sempre, os primeiros dez capítulos de Mateus, com mais de cem notas de rodapé.
Fiquei em estado de choque durante uns minutos, mas depois percebi que a única maneira de lidar com a situação era de recomeçar imediatamente, enquanto ainda tinha as notas mais ou menos presentes na cabeça.
Recomeçando, depois deste safanão, o Evangelho de Mateus, deu-se um clique que me permitiu encontrar o registo certo de que eu estava à procura, e que até aí me tinha fugido. Daí em diante, fiz sem percalços os 28 capítulos de Mateus (mantendo cada capítulo num documento separado) e devo dizer que foi uma experiência extraordinária. A emoção de traduzir a Paixão de Cristo foi algo que senti à flor da pele - algo que senti mesmo como uma Graça.
Depois deste estado maravilhoso, veio um acordar bem amargo: o processo de traduzir Marcos e Lucas de modo a que todas as palavras iguais em grego nos três Evangelhos ficassem exactamente iguais em português na minha tradução. Devo dizer que alguns tradutores antes de mim (não direi quem...) não se deram a essa estafa: tendo eu sofrido esse processo arrastado e inglório, percebo bem porquê.
Voltando ao Evangelho de Marcos, os dez capítulos inicialmente traduzidos foram todos para o lixo, não por acidente informático, mas porque eu tivera razão ao perceber antes que não estava a gostar da minha tradução. Recomecei Marcos do zero, depois continuei com Lucas (o único Evangelho que consegui traduzir calmamente sem percalços nem estados de choque) e, finalmente, terminei com João.
Em termos de balanço: sem dúvida alguma, o Evangelho que mais me exaltou espiritualmente foi o de João, mas também senti uma emoção fortíssima ao traduzir o Evangelho de Mateus. O prazer de traduzir Marcos e Lucas ficou comprometido por causa da minúcia enlouquecedora, que é necessário respeitar, para que todas as palavras, expressões e frases comuns em grego fiquem rigorosamente iguais na tradução portuguesa. Mas também tenho de dizer que o Evangelho onde mais encontrei surpresas bem fascinantes foi o de Lucas.
Mas disso falarei noutra ocasião.»




Por fim, a entrevista de Frederico Lourenço no programa "Todas as Palavras", da RTP 3:
http://www.rtp.pt/play/p2408/e253587/todas-as-palavras



* No grego clássico escreviam-se todas as letras em maiúscula, não havia espaço entre as palavras e não se usavam sinais de pontuação. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

RONDA DAS MIL BELAS EM FROL


No dia 20 de setembro decorreu, na Pensão Amor, a apresentação do mais recente livro de Mário de Carvalho, numa sessão de lançamento com a participação de Inês Pedrosa, Patrícia Reis, Rita Ferro e Ana Daniela Soares.

                                       
A sessão foi gravada para ser transmitida no programa "A Páginas Tantas" da Antena 1:
http://www.rtp.pt/play/p1799/e251826/paginas-tantas

O livro intitula-se "Ronda das mil belas em frol" e consta de dezasseis histórias sobre sexo e de um epílogo.

                                          Foto de Fernanda Cunha

Podem dividir-se os grandes escritores em dois grupos: os que escrevem sempre o mesmo livro (Abelaira, por exemplo) e os que escrevem livros diferentes, em termos temáticos e, até, estilísticos, como Mário de Carvalho.

Isso, mas não só, explica que já tenha sido galardoado, entre outros, com os prémios da Associação Portuguesa de Escritores nas categorias de romance, teatro e conto, bem como com um prémio na área do ensaio. 

Mário de Carvalho raramente na sua obra tinha feito o trilho do sexo (veja-se, como exemplo, a página 80 de "A Sala Magenta", 1.ª edição, Editorial Caminho, 2008). 

Chegou agora o momento. E a seguir virá, certamente, outro caminho igualmente inesperado e surpreendente.

Transcrevo, com a devida vénia, excertos das últimas páginas do epílogo (e do livro):

«Nesta vida onerada de quotidianas contrariedades e percalços, que deram ocupação a tanto profeta, fulguram efémeros parênteses luminosos, interstícios de bem-estar, como os em que as crianças riem e os em que os corpos dos homens e das mulheres mutuamente rejubilam.
(...)
Não há mais elegante delineio da Natureza que aquela abençoada fenda, sulcada em macios conchegos, figurando duas mãos que rezam, unidas ao alto, entrada de catedral, gasalho de mistério. E todas individualmente distintas, como o rosto de cada qual. Se não fossem as cargas semânticas que, através dos tempos, tergiversam e desfiguram, eu era muito homem para utilizar o vocábulo "fisionomia". A mais fascinante não será, porventura, a mais proporcionada e canónica. Celebre-se cada mínima imperfeição da mais esplendorosa ogiva do mundo, onde confluem em subtil harmonia a Arte e o Além.
A quem me perguntasse porque é que eu sou assim, volveria que venho promovendo esse debate comigo mesmo. E torna-se-me sempre evidente que é preciso, a cada momento, romper, descobrir, desvendar, arribar à Índia.
(...)
Ora, que sentido faz apostrofar o bom do milhano por voar alto e querer abarcar? Ou a incansável toupeira que perfura onde lhe compete? Ou o pilriteiro por só dar pilritos?
(...)
Destarte continuarei enquanto as forças mo permitirem. Falta-me descobrir qualquer coisa e não descansarei enquanto essa falta perdurar. Talvez uma vida inteira não chegue, mas é preciso comprovar isso mesmo, implicando aí a casuística dos enigmas e dos deslumbramentos.
Sapatos de ferro gastaria eu de bom grado nestes caminho. A graça, o donaire e o fascínio de cada bela em frol torná-los-ia jeitosos e andadeiros.»


terça-feira, 30 de outubro de 2012

29 DE NOVEMBRO DE 2007

Entre 29 de novembro de 2007 e 9 de fevereiro de 2008, decorreu na Biblioteca Nacional de Portugal (na Sala de Referência) uma mostra documental, com o objetivo de dar a conhecer o espólio de Augusto Abelaira, que foi doado à BNP em 2004 pela filha do escritor, Ana Sílvia Abelaira.
A mostra incluiu fotografias, documentos e objetos pessoais, edições antigas dos seus livros, cartas, versões autógrafas e datiloscritas de vários livros (alguns inéditos), notícias e entrevistas em jornais.
A BNP publicou na altura um livro muito interessante com o catálogo da exposição:




Tive o enorme prazer de participar, no dia 29 de Novembro de 2007, na visita guiada (de forma apaixonada, por Manuela Vasconcelos) e na sessão (na Livraria BNP) que contou com intervenções de Eduarda Dionísio e Jorge Silva Melo.
Termino com a ligação para o texto que Eduarda Dionísio leu nessa tarde inolvidável.

sábado, 29 de setembro de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

TEJO



«O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia»
Porque o Tejo é o rio que corre pela minha aldeia.

sábado, 30 de junho de 2012

NO CAFÉ

A: Qual o teu livro preferido?
B: "Memórias de Um Átomo".

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PORTUGAL


Três excertos de «Os Maias»:

«Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá...O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministros era esta - «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.»
Pág. 169  

«Tenho tido saudades das nossas belas discussões em Sintra!- disse ele, dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outrora pertencia ao Maia. - Tivemo-las de primeira ordem!
Eram realmente «pegas tremendas» no pátio do Vítor sobre literatura, sobre religião, sobre moral...
(...)
O conde sorriu.
(...)
- Em todo o caso, tivemo-las brilhantes! - concluiu ele, olhando o relógio. - E, eu confesso, uma discussão elevada sobre religião, sobre metafísica, encanta-me... Se a política me deixasse vagares, dedicava-me à filosofia... Nasci para isso, para aprofundar problemas.»
Pág. 553

 
«Mas Ega entendia que o Sr. Afonso da Maia devia descer à arena, lançar também a palavra do seu saber e da sua experiência. Então o velho riu. O quê! Compor prosa, ele, que hesitava para traçar uma carta ao feitor? De resto, o que teria a dizer ao seu país, como fruto da sua experiência, reduzia-se pobremente a três conselhos, em três frases - aos políticos: «menos liberalismo e mais carácter»; aos homens de letras: «menos eloquência e mais ideia»; aos cidadãos em geral: «menos progresso e mais moral».
Pág. 574

 
E como Carlos lembrava a política, ocupação dos inúteis, Ega trovejou. A política! Isso tornara-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o negócio atacara o constitucionalismo como um filoxera! Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxavam pelos cordéis.»
Pág. 700

sábado, 31 de março de 2012

INCIPITS

Um desafio: três (ou quatro) incipits que tenham vindo à tona da memória.
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«11 de Dezembro
Olho para o papel branco (afinal um tudo-nada pardacento) sem a angústia de falava Gauguin (ou era Von Gogh?) ao ver-se em frente da tela, mas com apreensão, apesar de tudo. Que vou eu escrever - eu, a quem nada neste mundo obriga a escrever? Eu, antecipadamente sabedor da inutilidade das linhas que neste momento ainda não redigi, dentro de alguns minutos (de alguns anos) finalmente redigidas?
Não sei: folheio ao acaso a página cento e quinze do meu caderno, ainda branca, ainda parda, e pergunto-me: daqui a dois, a três, a quatro meses, quando a alcançar - se a alcançar -, terei escrito uns milhares de palavras. Que palavras?
E fico perturbado, muito mais perturbado por essa página do que por esta, já em parte azulada e vazia de surpresas. Como saber se nela, hoje e durante um ou dois meses ainda branca, branca e situada no futuro, embora um futuro espacial, eu não contarei (não terei contado) coisas de cortar o coração? Sobre mim. Ou sobre o mundo, uma guerra, a vitória completa do fascismo, por exemplo.»
BOLOR, Augusto Abelaira, 1968
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«Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe. «Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»
O QUE DIZ MOLERO, Dinis Machado, 1977
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«D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fose, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-se ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimeno fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.»
MEMORIAL DO CONVENTO, José Saramago, 1982
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«Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?»
UM DEUS PASSEANDO PELA BRISA DA TARDE, Mário de Carvalho, 1994

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O EU

O Eu numa redondilha genial de Camões.


MOTE SEU

De que me serve fugir
de morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

VOLTAS

Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe:
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.