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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O HOMEM É UMA FRAÇÃO

Veio-me à memória a mensagem de 24 de Dezembro de 2009 quando li a seguinte frase de Tolstoi (cito de cor):
O Homem é uma fração: o numerador corresponde ao que é; o denominador ao que acredita ser.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MÁRIO CLÁUDIO - TIAGO VEIGA

Mário Cláudio acaba de publicar «Tiago Veiga - Uma Biografia», aparentemente na linha de anteriores biografias romanceadas: «Amadeo» (Amadeo de Souza-Cardoso), «Guilhermina» (Guilhermina ) e «Rosa» (Rosa Ramalho).
Tiago Veiga (1900-1988) é um poeta modernista, bisneto de Camilo Castelo Branco, nascido no Brasil, casado com uma francesa e, depois, com uma irlandesa, e falecido (por suicídio) no Alto Minho, onde se refugiou no fim da vida.
Foi um cosmopolita e um viajante compulsivo.
Viveu em Itália, Paris, Londres, Galiza, Porto, Lisboa, Marrocos, Guiné-Bissau, Nova Iorque.
O poeta optou pelo anonimato em vida, não publicou nenhuma obra, mas relacionou-se com grandes nomes da política e das literaturas portuguesa e europeia, incluindo com Mário Cláudio, o qual admite ter sido por ele influenciado em termos literários.
A primeira pessoa que falou de Tiago Veiga a Mário Cláudio foi Mário Sottomayor Cardia, quando eram ambos estudantes de Direito em Lisboa.
Conheceu-o pouco tempo depois, mas as relações só se intensificaram muitos anos mais tarde, quando Tiago Veiga o começou a ver como seu futuro biógrafo.
Foi Tiago Veiga quem, segundo Mário Cláudio, lhe impôs a escrita da sua biografia.
Nesta constam fotografias de alguns ascendentes de Tiago Veiga, da «Casa dos Anjos», do poeta em várias fases da vida, das esposas francesa e irlandesa, da filha e do filho, de Tiago com Mário Cláudio em 1984, bem como de pinturas do poeta.
A capa do livro de Mário Cláudio é composta a partir do quadro «Os Cavalos de Danaan», da mulher irlandesa de Tiago Veiga, Ellen Rassmunsen.
O biografado deixou também uma «arca», tendo Mário Cláudio procedido já à publicação póstuma de três das suas obras: «Os Sonetos Italianos de Tiago Veiga» (2003), «Gondelim» (2008) e «Do Espelho de Vénus» (2010).
De resto, no próprio «Tiago Veiga - Uma Biografia» são divulgados muitos inéditos do escritor.
O poeta, embora nunca tenha publicado, criou um pseudónimo: Rodrigo de Matos.
Porém, se exceptuarmos as referências e a actuação de Mário Cláudio, ninguém conhece Tiago Veiga.
Os críticos literários consideram tratar-se de um «heterónimo» não assumido de (e por) Mário Cláudio ou de uma «nova teoria da heteronímia» (Miguel Real).
A primeira referência pública a Tiago Veiga foi em 1988, num artigo de Mário Cláudio, no ex-semanário «Tempo», em que era anunciada a sua morte.
A literatura é («nem só mas também») um jogo. Não é, Augusto?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

NO CAFÉ

B: Recorrentemente sinto a minha vida como um livro: de que não conheço o final, a extensão, a evolução das personagens, das situações, das acções e da própria localização espacial.
Um livro que, a cada nova leitura das páginas já escritas, se revela diferente.
A: E como te sentes relativamente ao livro? Como simples personagem? Ou como, também, narrador? Ou, ainda, como, também, autor?
B: Sinto-me como personagem e leitor.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

AUGUSTO ABELAIRA (1926-2003)



Como mencionei na mensagem de 29 de Outubro de 2009, comprei o meu primeiro livro de Augusto Abelaira - «Sem Tecto Entre Ruínas» - em Dezembro de 1979, na Livraria Portugal, na Rua do Carmo.
No dia 18 de Maio de 2004, em que estava anunciada a publicação póstuma da sua última obra - «Nem Só Mas Também» -, fui à FNAC do Chiado para a adquirir.
O livro não estava à venda, o funcionário desconhecia a respectiva edição.
De repente, tornou-se-me evidente: a Livraria Portugal, ali ao lado, tem o livro.
Saí da FNAC, desci a Rua do Carmo e comprei o último livro de Abelaira onde tinha comprado o primeiro, vendido muito provavelmente pelo mesmo empregado que me havia vendido o primeiro.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

GONÇALO M. TAVARES




















Gonçalo M. Tavares é um escritor português, com 40 anos.
Publicou o primeiro livro em 2001 e no último trimestre de 2010 publicou o 27º, o 28º e o 29º.
Já publicou em 7 editoras portuguesas.
Tem cerca de 160 traduções em 35 países.
Recebeu o Prémio LER/Millenium BCP em 2004, o Prémio José Saramago em 2005, o Prémio Portugal Telecom em 2007, o Prémio Internazionale Trieste em 2008 e o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro 2010 em França.
Receberá um dia o Prémio Nobel da Literatura.
Um dos livros publicados em 2010 - «Uma Viagem à Índia», livro começado em 2003 - é, provavelmente, o mais ambicioso dos seus livros.
Trata-se de uma epopeia em prosa (com o mesmo número de cantos e de estâncias de «Os Lusíadas») que fala da viagem de Bloom, de Lisboa à Índia, no início do século XXI.
É um itinerário da melancolia contemporânea.
Transcrevo duas passagens de recentes entrevistas do autor ao «Jornal de Letras, Artes e Ideias» e à revista «LER».
«Se eu sair à rua com um martelo o mundo transforma-se em algo martelável. Só estou a pensar em coisas que podem ser marteladas. Se em vez disso sair com uma chave de parafusos, parecer-me-á que o mundo é aparafusável. Os instrumentos que usamos mudam a nossa percepção. Agrada-me ter uma caixa de ferramentas variada.»
JL, 20 de Outubro de 2010, entrevista de Luís Ricardo Duarte e Maria Leonor Nunes
«(...) Qualquer dia talvez escreva um texto sobre esta questão da narração e das ideias. Esta divisão entre histórias e ideias é uma divisão incorrecta.
Será como a divisão muito estrita entre o corpo e a mente?
Por exemplo, a tradição filosófica oriental ensina muito os conceitos por meio de histórias. A nossa tradição ocidental é muito mais a de explicar o conceito, uma coisa mais teórica, e depois a de utilizar o exemplo. É interessante que seja depois no exemplo que entra a história ou a micronarrativa. Há um autor extraordinário nisso: o Wittgenstein. Ele pensa muito mas pensa através de micro-histórias. A ideia de que a narrativa não pensa ou de que o pensamento não é narrativo é uma ideia em que não me revejo. Gostava de fazer um ensaio a este respeito porque isto é um tema que me parece importante. A boa narrativa pensa, é evidente, e o bom pensamento conta histórias. Pensar não é mais do que contar uma história que é a história de uma ideia. Uma das coisas que eu gostava de desenvolver é esta: porque é que a ideia de narrativa se associa à ideia de personagem? O pensamento é a história de uma ideia. Alguém que pensa está a ter uma ideia que desenvolve ao longo do tempo. Portanto, essa ideia é como se fosse uma personagem que se vai transformando. Tem até opositores. A personagem-ideia tem sempre um inimigo que é o contra-argumento. Pensar é uma narrativa.»
LER, Dezembro 2010, entrevista de Carlos Vaz Marques

domingo, 11 de julho de 2010

MÁRIO DE CARVALHO






















No dia 26 de Abril foi apresentado, na Livraria Barata, com a presença do escritor, o novo livro de Mário de Carvalho, "A Arte de Morrer Longe".
Na sessão de apresentação o actor Diogo Dória leu excertos da obra: a escrita de Mário de Carvalho ganhou uma dimensão para mim desconhecida e insuspeitada.
O meu contacto com a obra de Mário de Carvalho começou a partir da leitura, no primeiro semestre de 2004, de "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina"(2003), a que se seguiram as leituras dos livros "Contos Vagabundos" (2000), "A Sala Magenta" (2008), "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho" (1983) e "A Arte de Morrer Longe" (2010).
Era Augusto Abelaira quem dizia que há dois tipos de escritores: os que escrevem livros diferentes uns dos outros e os que, publicando vários livros, escrevem sempre o mesmo livro.
Abelaira considerava-se pertencente ao segundo grupo.
Mário de Cravalho integra claramente o primeiro.
Na capa de "A Arte de Morre Longe" consta que se trata de um "cronovelema", género que, segundo o próprio autor, junta crónica (não só a jornalística mas também a antiga, à Fernão Lopes), novela, cinema e poema.
Aliás, a primeira referência a este "género" aparece na página 34 de "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina".
"A Arte de Morrer Longe" é um livro sobre um casal jovem - Arnaldo e Bárbara - em processo de divórcio e partilha (de uma tartaruga), sobre o mundo contemporâneo, sobre Lisboa (com a já famosa ode à Avenida de Roma), sobre a escrita, sobre a famosa Lagoa Moura (e Grodemil), sobre a condição humana.
Tudo, aliado a uma escrita imediatamente reconhecível e que justificou que Ricardo Araújo Pereira dissesse que gostaria de escrever, um dia, assim.
Pequena curiosidade: quando lia "A Arte de Morrer Longe", lia, também, algumas partes de "Os Lusíadas".
Eis quando, depois de encontrar Coriolano e Cintialina, amantes potenciais mas nunca concretizados de Bárbara e Arnaldo, respectivamente, me deparo (na estância 33 do canto IV)com Coriolano e Catilina (a par de Sertório), romanos traidores que lutaram contra a sua pátria:

«Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
Catilina, e vós outros dos antigos
Que contra vossas pátrias, com profano
Coração, vos fizestes inimigos:
Se lá no reino escuro de Sumano
Receberdes gravíssimos castigos,
Dizei-lhe que também dos Portugueses
Alguns traidores houve algumas vezes.»

Transcrevo um excerto de "A Arte de Morrer Longe" (págs. 88-91) que me tocou particularmente, com uma extraordinária alegoria da condição humana:

«Pobre tartaruga sem nome, fitando em frente, no seu aquário de acrílico embaciado, conformada por lhe terem propiciado ar respirável, um espaço para movimento, uma água limosa, uma comida lançada suficientemente do alto. Se eu estou bem informado sobre a visão dos quelónios, mais apetrechada para ver ao longe que ao perto, ela distinguiria, à transparência, umas sombras acinzentadas e uns movimentos de claro-escuro, a perpassar. Das vozes e remoques sardónicos em volta aperceberia tão-somente as vibrações negativas. Nada mais lhe chegaria. Haveria apenas, em qualquer lado, causando desconforto, um apelo obscuro e aprazível de vastidões pantanosas, rumorejo de insectos, golpes de sol, entre névoas, sobre confortáveis águas pardas, macias, espessas e sem cloro.
E aí está como as circunstâncias da tartaruga reclusa, no seu exíguo compartimento, desimpedida de movimentar os membros, a cabeça, e de embater contra as paredes do aquário, evocam a condição humana, livre de esbracejar dentro dos seus limites, mas apenas pressentindo, sem os compreender, e sem atingir as suas verdadeiras naturezas, as vozes, os rumores e os relampejos que há em volta.
Afastem-se da terra cinquenta quilómetros, passem a estratosfera, abandonem a gravidade, o que está em cima será igual ao que está em baixo, dando cumprimento à célebre máxima do Hermes Trimegistos, cuja comprovação exige, no entanto, o concurso de poderosíssimos motores. Recuem até à explosão primordial e o vocábulo «antes» deixará de fazer sentido, porque supõe a própria existência do tempo que só então («só então»?) foi criado e atentem na insuficiência da prosa para atingir estas complexas realidades, plantadas no âmago do inefável.
Ora acontece que a origem da quezília entre Arnaldo e Bárbara é tão misteriosa e inalcançável pelos sentidos como o Big Bang ou as fórmulas do esoterismo helenístico. O que existiu para além do começo? Ninguém sabe. A terra está por cima ou por baixo do sol? É indiferente. Tanto Arnaldo como Bárbara passavam boa parte dos seus momentos mais íntimos a tentar reconstituir a forma como tudo tinha começado: a palavra mais áspera, o gesto de brusquidão, o sarcasmo, a desatenção, a indiferença, em suma, o atentado mais primeiro, a causa movens daquela espiral que já ia quase a romper-se. Mas não conseguiam: o que lhes ocorria eram sempre causas segundas, circunstâncias agravantes, remoques e atitudes que vinham acumular-se e crescendo, como pedras que se vão atirando para um poço e que, com a continuação, já fazem diferença e transvazam.
E se cada um deles era bem capaz de elaborar uma completa lista das culpas do outro, nenhum podia, em boa consciência, garantir que elas não eram a resposta a uma provocação que as antecedia, que por sua vez se justificava com uma palavra mal colocada, que, por seu lado... O mais que conseguiam aquelas almas, que até não eram mal formadas, era uma espécie de cegarrega, como a da formiga que tem o pé preso na neve e pede ao Sol que derreta a neve, etc.
A cada dia que passava, as coisas tendiam a agravar-se e o próprio esforço de memória, revolvendo e trazendo ao de cima escórias e impurezas, algumas há muito soterradas e, até, anteriores ao casamento, era um factor de desconforto e afastamento. Como em tudo na vida, a recordação dos bons momentos era abafada pela dos maus, porque o escuro é mais forte que a claridade, e a treva é o estado natural de repouso que não exige nem esforço nem energia.
Sobretudo, naquele casal não existia maturidade que permitisse um exercício recíproco de apaziguamento. Sobrelevavam, por um lado, as exigências de um amor-próprio que não encontrava melhor nem mais fácil aplicação; por outro, o próprio receio do fracasso, não fosse o esforço de conciliação um passo mal dado, a causar mal-entendidos e mais consequências enviesadas.»

No último trimestre de 2004, frequentei "oficinas de escrita narrativa" com Mário de Carvalho, organizadas pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pela revista Ficções, que decorreram na livraria Ler Devagar (então no Bairro Alto, por trás do Pavilhão Chinês).
Publicarei de seguida o fruto do trabalho desenvolvido nessas "oficinas".

sábado, 19 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)


Em 1983, estudante do 12º ano, comprei a 2ª edição do "Memorial do Convento" (hoje obra de leitura no 12º ano...)





O autógrafo de José Saramago, na apresentação do livro "As Intermitências da Morte", no Teatro São Carlos, em 11 de Novembro de 2005.



O endereço - http://www.youtube.com/watch?v=ITNBVO4Dg24 - onde pode ser visto o filme, realizado por Isabel Coutinho, da exposição visitada, em 27 de Julho de 2008, no Palácio da Ajuda.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A MORTE DE IVAN ILITCH

«XII

A partir desse momento começou aquele período de três dias de gritos ininterruptos, tão horrível que mesmo através de duas portas fechadas era impossível ouvir sem pavor. No momento em que respondeu à mulher, compreendeu que estava perdido, que não havia regresso, que chegara o fim, o fim total, e a dúvida ainda por resolver permaneceria dúvida.
- Eh! Eh! Eh! - gritava ele em diferentes tons. Tinha começado por gritar: «Não quero!», e assim continuou a gritar no mesmo som da letra «e».
Durante aqueles três dias, em que o tempo não existia para ele, debateu-se naquele saco negro para o qual o empurrava uma força invisível, irresistível. Debateu-se como se debate um condenado à morte nas mãos do carrasco, sabendo que não se pode salvar; e em cada momento sentia que apesar de todos os esforços de luta estava cada vez mais perto daquilo que o horrorizava. Sentia que o seu sofrimento era também por estar a ser enfiado naquele buraco negro e ainda mais pelo facto de não conseguir entrar nele. Era impedido de penetrar pela consciência de que a sua vida tinha sido boa. Era essa justificação da sua vida que o prendia e o impedia de avançar e que o atormentava mais do que tudo.
De súbito uma força desconhecida atingiu-o no peito e no flanco, oprimindo-lhe ainda mais a respiração, caiu no buraco e ali, no fundo do buraco, qualquer coisa começou a brilhar. Aconteceu-lhe aquilo que lhe costumava acontecer na carruagem do comboio, quando pensava que seguia para a frente e ia para trás, e de repente descobria a verdadeira direcção.
- Sim, nada foi como devia ser - disse a si mesmo. - Mas não importa. É possível, «isso» pode fazer-se. Mas «isso» é o quê? - perguntou a si mesmo e de repente sossegou.
Isto foi no final do terceiro dia, uma hora antes da sua morte. Nesse mesmo momento o aluno do liceu entrou de mansinho no quarto do pai e aproximou-se da cama. O moribundo continuava a gritar desesperadamente e agitava os braços. A sua mão caiu na cabeça do rapaz, que a agarrou, a levou aos lábios e começou a chorar.
Nesse preciso momento Ivan Ilitch afundou-se, viu a luz e revelou-se-lhe que a sua vida não tinha sido o que devia ser, mas que isso ainda podia ser remediado. Perguntou a si mesmo: o que é então «isso», e ficou quieto, à escuta. E então sentiu que alguém lhe beijava a mão. Abriu os olhos e olhou para o filho. Sentiu pena dele. A mulher aproximou-se. Ele olhou-a. Ela olhava para ele com a boca aberta e lágrimas no nariz e na face, olhava-o com uma expressão de desespero. Sentiu pena dela.
«Sim, eu faço-os sofrer», pensou. «Têm pena, mas será melhor para eles quando eu morrer.» Queria dizer isto, mas não tinha forças para falar. «De resto, para quê falar, é preciso fazer», pensou. Com o olhar indicou à mulher o filho, e disse:
-Leva-o daqui... faz-lhe pena... e a ti... - Queria ainda dizer «perdão» mas disse «permissão» e, já incapaz de se corrigir, agitou a mão sabendo que seria entendido por aquele que o devia entender.
E de súbito tornou-se-lhe claro que aquilo que o afligia e não o largava lhe saía de repente tudo de uma vez, e por dois lados, por dez lados, por todos os lados. Tinha pena deles, era preciso agir de modo que não sofressem. Livrá-los a eles e a si mesmo daqueles sofrimentos. «Que bom e que simples», pensou. «E a dor?», perguntou a si mesmo. «Que é dela? Então, dor, onde está tu?»
Ficou atento.
«Sim, cá está ela. Pois bem, deixá-la doer.»
«E a morte? Onde está ela?»
Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto! - disse ele de súbito em voz alta. - Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se! - disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou-se a morte», disse a si mesmo. «Já não existe.»
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Iltch, Leya (BIS), 2008

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A MORTE DE IVAN ILITCH

«XI

Assim se passaram outras duas semanas. Nessas semanas deu-se um acontecimento desejado por Ivan Ilitch e pela sua mulher: Petrichev fez o pedido formal de casamento. Aconteceu à tarde. No dia seguinte Praskóvia Fiódorovna entrou no quarto do marido pensando em como informá-lo do pedido de Fiódor Petróvitch, mas nessa mesma noite deu-se uma mudança para pior no estado de Ivan Ilitch. Praskóvia Fiódorovna encontrou-o naquele mesmo sofá, mas numa posição diferente. Estava deitado de costas, gemia e olhava fixamente à sua frente.
Ela começou a falar dos medicamentos, mas ele olhou-a de tal modo que ela não acabou de dizer aquilo que tinha começado: tal era a raiva contra ela que se exprimia naquele olhar.
- Por amor de Deus, deixa-me morrer em paz - disse ele.
Ela quis sair, mas nesse instante a filha entrou e aproximou-se para dar os bons-dias. Ele olhou a filha do mesmo modo que olhara a mulher e à pergunta dela sobre a sua saúde disse-lhe secamente que em breve os deixaria a todos livres. Ambas se calaram, ficaram sentadas uns momentos e depois saíram.
- Que culpa temos nós? - disse Liza à mãe. - Até parece que fomos nós que fizemos aquilo! Tenho pena do papá, mas para quê atormentar-nos?
O médico chegou à hora habitual. Ivan Ilitch respondia-lhe: «sim, não», sem desviar dele o olhar furioso, e no fim disse:
- O senhor sabe que não me pode ajudar, por isso deixe-me em paz.
- Podemos aliviar o sofrimento - disse o médico.
- Nem isso pode fazer; deixe-me.
O médico saiu para a sala de estar e informou Praskóvia Fiódorovna de que a situação era muito grave e que o único meio para aliviar os sofrimentos, que deviam ser horríveis, era o ópio.
O médico disse que os sofrimentos físicos dele eram horríveis, e isso era verdade; mas mais horríveis que os sofrimentos físicos eram os sofrimentos morais, que eram o seu principal tormento.
Os seus sofrimentos morais consistiam em que naquela noite, ao olhar o rosto ensonado, bondoso e de maçãs salientes de Guerássim, lhe ocorreu de súbito: e se toda a minha vida estivesse errada?
Ocorreu-lhe que aquilo que antes lhe parecia completamente impossível, que não tivesse vivido a sua vida como devia ser, que isso pudesse ser verdade. Ocorreu-lhe que aquelas suas quase imperceptíveis veleidades de luta contra aquilo que as pessoas altamente colocadas consideravam bom, essas quase imperceptíveis veleidades que ele prontamente rejeitava - que elas pudessem ser verdadeiras e tudo o resto falso. E as suas funções oficiais, e o seu regime de vida, e aqueles interesses sociais e oficiais - tudo isso pudesse estar errado. E de repente sentiu toda a fraqueza daquilo que defendia. E não havia nada que defender.
«Mas se é assim», disse para si mesmo, «e eu estou a deixar a vida com a consciência de ter perdido tudo aquilo que me foi dado e que é impossível corrigir, como será?» Deitou-se de costas e pôs-se a rememorar toda a sua vida de modo inteiramente novo. Quando de manhã viu o criado e depois a mulher, depois a filha, depois o médico - cada um dos movimentos deles, cada palavra, confirmava para ele a horrível verdade que se lhe revelara durante a noite. Neles via-se a si próprio, tudo aquilo para que tinha vivido e via claramente que tudo aquilo estava mal, tudo aquilo era um horrível e enorme engano que ocultava a vida e a morte. Essa consciência aumentou, decuplicou os seus sofrimentos físicos. Gemia e agitava-se e puxava a roupa. Parecia-lhe que esta o apertava e o asfixiava. E odiava-os por causa disso.
Deram-lhe uma grande dose de ópio e ele ficou inconsciente; mas à hora do almoço tudo começou de novo. Mandava toda a gente embora e agitava-se de um lado para o outro.
A mulher aproximou-se e disse:
- Jean, meu querido, faz isto por mim (por mim?). Mal não pode fazer, e muitas vezes ajuda. Ora, isto não é nada. Até as pessoas com saúde muitas vezes...
Ele abriu muito os olhos.
- O quê? Comungar? Para quê? Não é preciso. E daí...
Ela começou a chorar.
- Sim, meu amigo? Eu chamo o nosso padre, ele é tão amável...
- Óptimo, muito bem - disse ele.
Quando o sacerdote chegou e o ouviu em confissão, ele acalmou-se, sentiu como que um alívio das suas dúvidas e em consequência disso dos sofrimentos, e teve um momento de esperança. De novo começou a pensar no apêndice e na possibilidade de cura.Comungou com lágrimas nos olhos.
Quando depois da comunhão o deitaram, sentiu-se aliviado por momentos e de novo surgiu uma esperança de vida. Começou a pensar na operação que lhe tinha sido sugerida. «Viver, quero viver», disse para si mesmo. A mulher veio felicitá-lo; disse-lhe as palavras habituais e acrescentou:
- Sentes-te melhor, não é verdade?
Sem olhar para ela, ele disse: sim.
As roupas dela, a compleição dela, a expressão do rosto, o som da voz - tudo lhe dizia a ele a mesma coisa: «Não é o que devia ser. Tudo aquilo por que tu viveste e vives, é tudo mentira, engano, que esconde de ti a vida e a morte.»E assim que pensou isto o seu ódio cresceu, e juntamente com o ódio os cruéis sofrimentos físicos e com os sofrimentos a consciência do fim inevitável e próximo. Havia qualquer coisa nova: uma sensação de aperto, pontadas de sufocação.
A expressão do seu rosto quando disse «sim» era horrível. Depois de proferir esse «sim», olhando-a a direito no rosto, voltou-se de bruços com uma rapidez invulgar para o seu estado de fraqueza, e gritou:
- Vão-se embora, vão-se, deixem-me em paz!»

Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Iltich, Leya (BIS), 2008

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A MORTE DE IVAN ILITCH

«X

Passaram-se mais duas semanas. Ivan Ilitch já não se levantava do sofá. Não queria estar deitado na cama e ficava no sofá. E quase sempre deitado com a cara voltada para a parede, sofria em solidão sempre os mesmos padecimentos insolúveis e sozinho pensava o mesmo pensamento insolúvel. O que é isto? Será na verdadade a morte? E a voz interior respondia: sim, é verdade. Porquê estes sofrimentos? E a voz respondia: por nada, é assim. E para além disto não havia mais nada.
Desde o início da doença, desde que Ivan Ilitch consultara pela primeira vez o médico, a sua vida dividia-se em dois estados de espírito opostos, que alternavam: ou o desespero e a espera da morte incompreensível e horrenda, ou a esperança e uma observação interessada do funcionamento do seu corpo. Ora tinha diante dos olhos um rim ou o apêndice que temporariamente se recusava a cumprir as suas obrigações, ora a morte incompreensível e horrenda, à qual não havia maneira de escapar.
Estes dois estados de espírito sucediam-se um ao outro desde o início da doença; mas quanto mais a doença avançava mais duvidosas e fantásticas se tornavam as considerações sobre o rim e mais real a consciência da morte que se aproximava.
Bastava-lhe recordar aquilo que fora três meses antes e o que era agora; recordar com que regularidade descera a montanha, para que se desfizesse qualquer possibilidade de esperança.
Nos últimos tempos a solidão em que se encontrava deitado com o rosto para as costas do sofá, essa solidão no meio de uma cidade populosa e dos seus numerosos conhecidos e da família - uma solidão que não podia haver maior em parte alguma: nem no fundo do mar nem em terra -, nos últimos tempos dessa horrrível solidão vivia apenas com a imaginação no passado. Os quadros do seu passado surgiam-lhe um após o outro. Começava sempre por aquilo que era mais próximo no tempo, descia à infância e aí parava. Se Ivan Ilitch se lembrava das ameixas secas cozidas que lhe tinham servido naquele dia, recordava as ameixas francesas húmidas e rugosas da infância, o seu sabor especial e a abundante saliva quando chegava aos caroços, e a par dessa recordação do sabor toda uma série de recordações desse tempo: a ama, o irmão, os brinquedos. «Não devo pensar nisso... é demasiado doloroso», dizia a si mesmo e voltava para o presente. Um botão nas costas do sofá e as rugas do marroquim. «O marroquim é caro, mas pouco resistente; a querela foi por causa dele. Mas era outro marroquim, e outra disputa, quando rasgámos a pasta do pai e fomos castigados e a mamã nos levou pastéis.» E de novo parava na infância, e de novo era doloroso e Ivan Ilitch procurava expulsar esses pensamentos e pensar noutra coisa.
E de novo, junto com essa torrente de recordações, outra torrente de recordações passava na sua mente - sobre como a sua doença se agravava e aumentava. Também aqui, quanto mais ele recuava mais vida havia. Havia mais coisas boas na vida e a própria vida era mais. Uma e outra coisa fundiam-se. «Tal como os tormentos vão sendo cada vez piores, também toda a minha vida ia sendo cada vez pior», pensava. Um ponto luminoso lá atrás, no princípio da vida, e depois tudo é cada vez mais negro e passa cada vez mais depressa. «Na razão proporcionalmente inversa à distância da morte», pensou Ivan Ilitch. E aquela imagem da pedra que caía com crescente velocidade gravou-se-lhe na alma. A vida, uma fila de sofrimentos cada vez maiores, voa cada vez mais depressa para o fim, para o mais horrível sofrimento. «Estou a voar...» Estremeceu, agitou-se, quis resistir; mas já sabia que era impossível resistir e de novo, com os olhos cansados de olhar mas incapazes de não olhar para aquilo que estava à sua frente, ficou a olhar para as costas do sofá e esperou - esperou essa horrível queda, o choque e a destruição. «É impossível resistir», dizia a si mesmo. «Mas se pudesse ao menos compreender para quê isto? Mas também isso é impossível. Seria possível explicar se pudesse dizer que não vivi como devia. Mas isso é impossível aceitar», dizia a si mesmo, recordando toda a legalidade, toda a correcção e a decência da sua vida. «Isso é impossível de admitir», dizia a si mesmo rindo-se com os lábios, como se alguém pudesse ver aquele seu sorriso e ser enganado por ele. «Não há explicação! Sofrimento, morte... Porquê?»

Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Ilitch, Leya (BIS), 2008

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A MORTE DE IVAN ILITCH

No início de 2009, numa livraria, deparei-me com o livro "A Morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstoi, que, na capa, aludia ao "prefácio de António lobo Antunes".
Li o prefácio, com menos de uma página:

"Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte? (...) a morte de Ivan Ilitch é ambas as coisas e transcende tudo isso, para se tornar o retrato implacável da nossa condição: não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente. Tudo o que somos se acha em poucas páginas, escrito de uma forma magistral. Li-as, maravilhado, umas vinte ou trinta vezes, continuarei a lê-las, maravilhado, até ao fim dos meus dias. Maravilhado, exaltado, comovido, a perguntar-me como é que ele conseguiu. E conseguiu."

Comprei imediatamente o livro.

Porém, por razões diversas, não o li logo.

No dia 30 de Junho de 2009 assisti, na Faculdade de Letras de Lisboa, à sessão de encerramento da jornada comemorativa dos 30 anos da publicação de "Memória de Elefante", de António Lobo Antunes.

Essa secção consistiu num diálogo de António Lobo Antunes com Eduardo Lourenço e com o público.

Nessa ocasião, Eduardo Lourenço referiu que não se é o mesmo depois de ler "A Morte de Ivan Ilitch".

Comecei a lê-lo no dia seguinte.

Já tinha lido grandes livros, já tinha lido livros que "foram escritos para mim", mas pela primeira vez senti que estava a ler um livro "sobre mim", "sobre nós".

Pormenor curioso: acabei de lê-lo com a idade com que Ivan Ilitch morreu.

Já o li duas vezes, por inteiro, e, alguns excertos, mais vezes.

Nas próximas três mensagens publicarei os últimos três capítulos do livro, de uma beleza inesquecível.

(Por falar do final do livro, veio-me à memória outro final fabuloso - o de "Os Maias").

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AUGUSTO ABELAIRA (1926-2003)

Retrato de Augusto Abelaira por João Abel Manta para a sua primeira crónica no JL


A crónica de Augusto Abelaira no nº 1 do Jornal de Letras Artes e Ideias, de 3 de Março de 1981.


AO PÉ DAS LETRAS


O papel branco, afinal um tudo-nada pardacento

Ao pé da letra? Ao pé das letras? Pego na caneta, olho para o papel branco, afinal um tudo-nada pardacento... O objectivo mais ou menos vago é falar de literatura. Mas, depois de três anos de uma actividade jornalística semanal em que o prato de resistência foi quase sempre a política, os músculos da minha mão perderam o hábito da literatura. E, no entanto, nesse Fevereiro de 1978 que já vai distante, a minha intenção era não a política, talvez também não rigorosamente a literatura, mas um pouco de tudo: num jornal atento fundamentalmente à actualidade eu falaria de passarinhos, de flores, da Lua, de Fellini, de Wagner, de Cesário Verde. E um pouco, porque não?, de sociologia caseira. Por exemplo: a possível influência do cinema mais ou menos pornográfico na cama dos casais portugueses. Etc.

Mas há um certo mimetismo na escrita, como resistir ao ambiente? Em Roma é difícil ser florentino. O Jornal, onde eu escrevia, era essencialmente político, Lisboa também, o PS metia o socialismo na gaveta, Mota Pinto punha-o no caixote do lixo. Como resistir? E lá embarquei eu nas guerras dos partidos e perdi ou ganhei o meu tempo a fazer a análise estilítica dos discursos dos nossos estadistas. Até porque para falar de política basta ler os títulos dos jornais, mas para falar de passarinhos, de flores, da Lua, é preciso ter olhos na cara, tarefa bem mais difícil.

E outra coisa talvez: para um escritor de tradição francesa, intervir na política impõe-se inevitavelmente. O velho mito de que os intelectuais têm uma missão social a cumprir, são os modernos sacerdotes, o velho mito de que exercem influência , o velho mito de que a sociedade está à espera do que eles dizem. Ingenuidade. O escritor vai atrás das palavras sonantes, sacrifica o rigor a um bom dito de espírito, esquece as ideias, não se pode confiar nele.

E então, insensivelmente, um pouco sem querer, lancei ao papel as minhas conversas políticas de café. Por outras palavras: cheguei à conclusão de que as conversas de café poderiam ser investidas no papel de uma forma mais rendosa, a tantos escudos por página. O comércio, em suma. A civilização capitalista. A POLÍTICA.

Somente: escrever sobre política cria hábitos nos músculos da mão, hábitos tão difíceis de combater que custosamente poderei libertar-me deles, como se demonstra pelo retrato presente.

E não sei. Os nomes que da minha caneta desejam sair não são os de Tolstoi ou de Mozart, mas Balsemão, Soares e Cunhal - respeito as hierarquias, como se vê. E então: como bloquear esses hábitos? Como ensinar de novo aos músculos da mão, à própria caneta, que nem só de Balsemão, de Soares ou de Cunhal vive o homem, mas também de Tolstoi e de Mozart? Também das flores e dos passarinhos?

De modo que, deixem-me ensaiar: «Tolstoi, o autor de Guerra e Paz, nascido em mil oitocentos e tal...» Ou: «Mozart, que nasceu em Salzburgo e compôs a Música Maçónica e a Flauta Mágica...»

Não é fácil, distraio-me e continuo: «...se tivessem vivido o suficiente para votar nas últimas eleições...» O cronista político que continua em mim prossegue: teriam votado em...» Hesito, lembro-me do bispo do Funchal que nos proibiu (sem grande êxito, aliás) de votar em candidatos apoiados por maçónicos. Sim, em quem votaria Mozart, que era maçónico? Preciso de o saber para não votar como ele. Quanto ao Tolstoi, nunca esquecerei a infeliz experiência maçónica de Pedro, é pois possível que ele seguisse o conselho do bispo do Funchal. Mas também me lembro do seu enternecimento pelo Platão Karateiev, custa-me a crer que seguisse o conselho do citado bispo.

Bem, começo a educar os músculos da mão, começo a extrair da caneta certos nomes já quase esquecidos. Recomeço, pois, sem quaisquer interferências políticas: «Dostoievski, cujo centenário este ano se comemora...» Mas poder-se-á falar de Dostoievski sem falar de política?

Olho apreensivo para o papel branco, afinal um tudo-nada pardacento da minha próxima crónica.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

AUGUSTO ABELAIRA (1926-2003)


José Gomes Ferreira, Abelaira e Carlos de Oliveira (circa 1968)


Entre a descoberta de Abelaira escritor (final de 1979) e Abelaira cronista (Verão de 1980), descobri Carlos de Oliveira, através da leitura, na disciplina de Português, no 9.º ano, do livro "Uma Abelha na Chuva".

Transcrevo a crónica Escrever na Água, de Augusto Abelaira, publicada no semanário O Jornal, em 3 de Julho de 1981, 2 dias após a morte de Carlos de Oliveira (1921-1981).


ESCREVER NA ÁGUA


Carlos

Não me importa agora que Carlos de Oliveira fosse o autor de algumas das mais belas poesias da língua portuguesa. Nem que tivesse escrito o mais misterioso e envolvente dos nossos romances. E isto nunca lho disse. Um pudor absurdo? Cheguei a afirmar publicamente (mas a ele, nunca) que considerava Finisterra (ou, melhor, Finisterra: paisagem e povoamento, ele irritava-se que lhe cortassem o título) o melhor romance português dos últimos 30 anos. Mas não era verdade - e só o tal pudor impediu que dissesse: de toda a literatura portuguesa (e não esquecendo Os Maias). Coisa que percebi imediatamente após a leitura da prova amorosamente dactilografada pela Ângela em papel azulado. Porque não lho disse se o sentia? Que pudor é este? Talvez não somente pudor, o receio da ironia dele: Você é uma pessoa muito amável e não acreditaria, pensaria que eu estava a lisongeá-lo. E eu não queria que ele pudesse pensar isso de mim. Para ele era mais verosímil uma admiração modesta, ele não tinha verdadeira consciência do livro que escrevera. Rendi-me à falsa verosimilhança.

Mas não importa isso agora, repito, porque mais importante me parece o amigo. E recordo-me de que, com a minha estúpida mania de brincar com coisas sérias, declarei recentemente a um jornal: Não tenho amigos. A hipócrita tentativa de ouvir alguém protestar, de ouvir o próprio Carlos de Oliveira? E estou a ver o rosto magoado, profundamente magoado, dele, quando no dia seguinte o encontrei. Você não será amigo de ninguém, é lá consigo, mas há pessoas que são suas amigas e você não tem o direito de falar como falou. Desejei meter-me pelo chão abaixo, o Carlos de Oliveira era um pouco a voz da consciência, uma consciência que se amava e que se temia. Um desses amigos capazes de sofrer pelos outros. Com os outros.

Mas agora? Carlos de Oliveira era uma das três pessoas com quem eu me habituara a conversar na própria ausência delas. O interlocutor de certos momentos quando eu estava sozinho. Quando escrevia um livro (que pensará o Carlos de Oliveira?). Quando via um bom filme (ele que não ia ao cinema). Quando lia um bom livro. Até quando amava. Sim, que pensará o Carlos de Oliveira? E apesar de vê-lo todos os dias conversava mais com ele quando não estava com ele.

Com quem vou agora conversar quando estiver sozinho, agora que das três pessoas com quem conversava em silêncio já outra morreu alguns tempos antes? E penso nas tantas coisas que lhe disse em silêncio, mas que não me atrevi a dizer-lhe na realidade.

Uma porção de coisas que andavam a afogar-se e que só a ele poderia confessar.

Recentemente fizemos uma aposta. A esquerda ganharia ou não em França? Céptico, eu dissera que não. Ele, que sim. Perdi a aposta que era um jantar. E íamos jantar num dia destes - ainda na terça-feira falámos nisso. Eu decidira ter a tal conversa, pôr em dia as muitas conversas que com ele tivera não tendo. A fascinação de pôr a alma a nu - a certeza de que só ele me saberia ouvir com esse misto de ternura e de ironia que tanto o caracterizava, a sua generosidade sem mácula, a sua prodigiosa capacidade de compreender sentindo-me se aproximar discretamente de nós. O seu conselho. A sua amizade.

Mas agora não é mais possível (continuarei decerto a falar com ele, mas na ausência definitiva). E como se fala com um amigo que se sabe que já morreu, como será possível manter esse teatro?

Quanto os livros... Que importa um livro, mesmo um grande livro, comparado com um amigo generoso?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

AUGUSTO ABELAIRA (1926-2003)

Como referi na mensagem de 29 de Outubro, "descobri" Augusto Abelaira no final de 1979.
(Recordo-me agora que, além da entrevista televisiva então referida, também terei ouvido, pela mesma altura, uma entrevista radiofónica de que me ficou o discurso céptico acerca do casamento.)
Porém, só no Verão de 1980 (nas férias grandes) descobri o cronista, através das famosas crónicas sob o título Escrever na Água, publicadas no semanário O Jornal, entre 17 de Fevereiro de 1978 e 27 de Novembro de 1992.
Tratava-se de crónicas essencialmente de comentário político, carregadas de argúcia, humor e ironia.
Mais tarde, entre 3 de Março de 1981 e 17 de Julho de 1996, publicou no Jornal de Letras, Artes e Ideias a crónica Ao Pé das Letras, com um cunho mais cultural e literário.
Já anteriormente, ainda antes do 25 de Abril, a partir de Janeiro de 1974, no jornal O Século, assinara diariamente, na primeira página, uma crónica, Entrelinhas (nome especialmente apropriado numa época de censura prévia).
Nas próximas duas mensagens publicarei a crónica Escrever na Água alusiva à morte de Carlos de Oliveira e a primeira crónica Ao Pé das Letras.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

HISTÓRIA

Li-o no Verão de 1980; de vez em quando (e de quando em vez) penso nele. Reencontrei-o esta semana.


Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Berthold Brecht (1898-1956)


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

AUGUSTO ABELAIRA (1926-2003)


Abelaira por Vasco



Augusto Abelaira é o escritor da minha vida. Ele escrevia (escreveu) para mim. Eu não sou certamente o leitor imaginário de quem ele tanto falava. Mas ele é o meu escritor imaginário.

O meu primeiro contacto com Augusto Abelaira, tinha eu 15 anos, foi quando o vi na televisão (ainda a preto e branco) a ser entrevistado. Não me recordo de nada em concreto. Terá sido, provavelmente, uma entrevista a propósito da publicação de "Sem Tecto entre Ruínas" e da atribuição, a esse livro, do Prémio Cidade de Lisboa. Algo me prendeu: a voz de falsete, a cabeleira branca, o brilhantismo do discurso.

Na próxima ida a Lisboa, nas férias de Natal de 1979, ao passar pela Livraria Portugal, na Rua do Carmo, deparei com "Sem Tecto entre Ruínas". Peguei no livro e li, na contracapa:

"Havia ali jornais expostos numa banca e então li, já não me recordo das palavras exactas: «O presidente do Conselho português, doutor Oliveira Salazar, gravemente doente.»Durante anos procurei imaginar este dia, adivinhar todas as reacções, as minhas e as dos outros, mas a notícia agora não me causava nem sombra de emoção. Sim, toda a minha vida sonhara com aquele momento, mas hoje... Como o brinquedo, depois de ganho perde o interesse.
Li a notícia, quase indiferente, emocionado apenas por não sentir emoção.
Ou isto: com o desaparecimento de Salazar era uma época da minha vida que morria. Compreendes? Afinal o Salazar fizera parte da minha vida, da infância, da adolescência, da minha maturidade... Um ponto de referência permanente, já um pouco de mim, algo que nunca poderia ser dissociado, quem sabe?, dos mais belos anos da minha vida!
O tempo perdido, o que não volta! Era eu, o tempo do entusiasmo, do MUD Juvenil. Dolorosamente, mas vivo."

Fiquei fascinado pelo fraseado, aqui e ali de sabor pessoano (embora eu ainda não conhecesse Fernando Pessoa), e pela perspectivação múltipla das coisas (presente em toda a sua obra e até nalguns dos respectivos títulos: "Deste Modo ou Daquele", "Nem Só Mas Também").







http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/augustoabelaira.html

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

SEBASTIÃO DA GAMA (1924-1952)



















Sebastião da Gama no Portinho da Arrábida, com a "Serra-Mãe" em fundo, e fac-simile da 1ª folha do Diário



Em 1973-74, no livro da minha 4.ª classe, descobri que havia uma outra maneira de dizer as coisas - descobri, diria hoje, a literatura. Foi ao ler o texto extraído do "Diário" de Sebastião da Gama, correspondente ao dia 12 de Janeiro de 1949 (segundo dia do "Diário"):


"O que eu quero principalmente é que vivam felizes."

- Não lhes disse talvez estas palavras, mas foi isto o que eu quis dizer. No sumário, pus assim: "Conversa amena com os rapazes". E pedi, mais que tudo, uma coisa que eu costumo pedir aos meus meus alunos: lealdade. Lealdade para comigo e lealdade de cada um para cada outro. Lealdade que não se limita a não enganar o professor ou o companheiro: lealdade activa, que nos leva, por exemplo, a contar abertamente os nossos pontos fracos ou a rir só quando temos vontade (e então rir mesmo, porque não é lealdade deixar então de rir) ou a não ajudar falsamente o companheiro.

"Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos".

Não acabei sem lhes fazer notar que "a aula é nossa". Que a todos cabe o direito de falar, desde que fale um de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MIGUEL TORGA (1907-1995)


Salvo erro, em Março de 1981, no número 2 do "Jornal de Letras, Artes e Ideias", li um poema inédito de Miguel Torga: "DEPOIMENTO".
Decorei-o (quase) instantaneamente. Para sempre.



DEPOIMENTO

De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.