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sábado, 29 de setembro de 2012

«ESPERANÇA GRAMATICAL»


Uma excelente crónica, escrita por Ricardo Araújo Pereira e publicada na revista VISÃO de 31 de maio de 2012.
Acreditemos no poder das palavras!





Esperança gramatical



E quando o leitor pensava que já tinha ouvido tudo acerca da crise, de repente fica a saber que, gramaticalmente, é muito difícil que Portugal vá à falência. E, enquanto for gramaticalmente impossível, eu acredito. Justifico esta ideia com a seguinte teoria fascinante: normalmente, considera-se que o verbo falir é defectivo. Significa isto que lhe faltam algumas pessoas, designadamente a primeira, a segunda e a terceira do singular, e a terceira do plural do presente do indicativo, e todas as do presente do conjuntivo. Não se diz «eu falo», «tu fales», nem «ele fale». Não se diz «eles falem». Todos os modos e tempos verbais do verbo falir se admitem, com excepção de quatro pessoas do presente do indicativo e todo o presente do conjuntivo. Em que medida é que isto são boas notícias? O facto de o verbo falir ser defectivo faz com que, no presente, nenhum português possa falir. Não é possível falir, presentemente, em Portugal. «Eu falo» é uma declaração ilegítima. Podemos aventar a hipótese de vir a falir, porque «eu falirei» é uma forma aceitável do verbo falir. E quem já tiver falido não tem salvação, porque também é perfeitamente legítimo afirmar: «eu fali». Mas ninguém pode dizer que, neste momento, «fale».
Acaba por ser justo que o verbo falir registe estas falências na conjugação. Justo e útil, sobretudo em tempos de crise. Basta que os portugueses vivam no presente - que, além do mais, é dos melhores tempos para se viver - para que não «falam» (outra conjugação impossível). Não deixa de ser misterioso que a língua portuguesa permita que, no passado, se possa ter falido, e até que se possa vir a falir, no futuro, ao mesmo tempo que inviabiliza que se «fala», no presente.
Se eu nunca «falo», como posso ter falido? Se ninguém «fale», porquê antever que alguém falirá? Talvez a explicação esteja nos negócios de import/export. Nas outras línguas, é possível falir no presente, pelo que os portugueses que têm negócios com estrangeiros podem ver-se na iminência de falir. Mas basta que os portugueses não falem (do verbo falar, não do verbo falir) acerca de negócios com estrangeiros para que não «falam» (do verbo falir, não do verbo falar). Eu tenho esse cuidado, e por isso não falo (do verbo falir e do verbo falar).
Bem sei que o prof. Rodrigo Sá Nogueira, assim como outros linguistas, se opõe a que o verbo falir seja considerado defectivo. Mas essa é uma posição que tem de se considerar antipatriótica. É altura de a gramática se submeter à economia. Tudo o resto já se submeteu. 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PORTUGAL


Três excertos de «Os Maias»:

«Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá...O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministros era esta - «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.»
Pág. 169  

«Tenho tido saudades das nossas belas discussões em Sintra!- disse ele, dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outrora pertencia ao Maia. - Tivemo-las de primeira ordem!
Eram realmente «pegas tremendas» no pátio do Vítor sobre literatura, sobre religião, sobre moral...
(...)
O conde sorriu.
(...)
- Em todo o caso, tivemo-las brilhantes! - concluiu ele, olhando o relógio. - E, eu confesso, uma discussão elevada sobre religião, sobre metafísica, encanta-me... Se a política me deixasse vagares, dedicava-me à filosofia... Nasci para isso, para aprofundar problemas.»
Pág. 553

 
«Mas Ega entendia que o Sr. Afonso da Maia devia descer à arena, lançar também a palavra do seu saber e da sua experiência. Então o velho riu. O quê! Compor prosa, ele, que hesitava para traçar uma carta ao feitor? De resto, o que teria a dizer ao seu país, como fruto da sua experiência, reduzia-se pobremente a três conselhos, em três frases - aos políticos: «menos liberalismo e mais carácter»; aos homens de letras: «menos eloquência e mais ideia»; aos cidadãos em geral: «menos progresso e mais moral».
Pág. 574

 
E como Carlos lembrava a política, ocupação dos inúteis, Ega trovejou. A política! Isso tornara-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o negócio atacara o constitucionalismo como um filoxera! Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxavam pelos cordéis.»
Pág. 700

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A IMPORTÂNCIA DO PASSADO

O passado também permite, feliz ou infelizmente, prever o futuro.
Por isso, faz sentido:
  • Verificar em que anos, neste século, os trabalhadores da Administração Pública portuguesa viram o seu rendimento subir acima do valor da inflação;
  • Tentar perceber o porquê desse facto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A VELOCIDADE DA LUZ (continuação)

Dando seguimento à mensagem de 22 de Outubro último, informe-se que o partido alternativo de Governo, na oposição, no primeiro ano fez coro de crítica com os fazedores de opinião; no segundo ano propôs o não pagamento de apenas metade do subsídio de Natal aos trabalhadores públicos.
Nesse país, muito diferente de todos os que conhecemos, não faltam coisas estranhíssimas. A título de exemplo, a Constituição, com cerca de três séculos, embora permita a formação e existência dos mais diversos partidos políticos, não prevê eleições e prescreve que apenas dois partidos se sucedam alternadamente no Governo de 4 em 4 anos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PROBLEMAS DA VIDA

Qual o pino que vou usar hoje?

domingo, 23 de outubro de 2011

A VELOCIDADE DA LUZ

Num país situado num planeta a muitos anos-luz da Terra, o Governo, para atingir um determinado valor de défice orçamental, decidiu, em determinado ano, criar um imposto adicional temporáro sobre os trabalhadores públicos, no montante equivalente ao subsídio de Natal.

No ano seguinte, perante problema semelhante, o Governo optou por não pagar, nesse ano, o subsídio de Natal aos trabalhadores públicos.


Os fazedores de opinião, no primeiro ano, criticaram o Governo por ter criado um imposto que seria inconstitucional (carecendo de generalidade) e por ter diminuído o défice por via do aumento da receita e não através da redução da despesa; no segundo ano, congratularam-se pelo facto de a diminuição do défice ter sido operada pela redução da despesa e não pelo aumento da carga fiscal.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

MEMORANDO

Este blogue vai ser reformulado.
Do respectivo conteúdo não farão parte a maledicência, a pornografia, a politiquice e a futebolice.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ESTADOS

«Existem diversas modalidades de Estado: os Estados socialistas, os Estados comunistas, os Estados capitalistas e o estado a que isto chegou.»


Salgueiro Maia, dirigindo-se aos militares na parada na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974

terça-feira, 1 de março de 2011

DÚVIDAS POLÍTICAS

Não foi a leitura das revistas que lemos nos consultórios e nos cabeleireiros a prender-me.
Foi a conversa entre dois pacientes pacientes, enquanto aguardavam a chegada pontualmente atrasada do médico.
A propósito da recorrente questão da redução do número de deputados da Assembleia da República, um dos interlocutores disse:
«A redução do número de deputados é negativa, porque contribui para eliminar os pequenos partidos e, se não existissem os comunas, a esquerda caviar e os populistas de direita, então é que o país seria completamente abocanhado pelo bloco central dos interesses.»
Pensei: quantos pensarão assim? E em quem votarão?