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terça-feira, 13 de março de 2018

JUAN AMBROSIO


Tive a graça de ter tido Juan Ambrosio como formador, nos últimos dois anos.

Juan Ambrosio é mestre em Teologia e assistente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

Foi um dos melhores docentes que tive na vida.

Deixo aqui, neste dia significativo, o vídeo do programa "Ecclesia" em que Juan Ambrosio fala sobre a exortação apostólica "Amoris laetitia" e, a esse propósito, do "programa" do pontificado do Papa Francisco subjacente a esse documento, à exortação apostólica "Evangelii Gaudium", à encíclica "Laudato si" e ao Jubileu extraordinário da Misericórdia.



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

NO CAFÉ


A: Durante muito tempo pensei: o que distingue o sonho da realidade é a inverosimilhança, a incoerência, a ilogicidade de alguns sonhos.

B:

A: Mais tarde, descobri que a realidade nem sempre é verosímil, coerente, lógica.

B: Concluíste que não há diferença...

A: Não. A diferença é que do sonho acordamos e da realidade não.

B: Tens a certeza de que não acordamos?

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

P. ALFREDO DINIS, SJ






O Padre jesuíta Alfredo Dinis nasceu em Tramagal, em 1952, e faleceu em 2013, em Braga.

Licenciado em Filosofia e Humanidades pela Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa.

Licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma.

Mestre e doutor em História e Filosofia da Ciência pela Universidade de Cambridge.

Professor e director da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa.

Foi ordenado, em 2 de julho de 1983, numa missa campal em Tramagal.

Cruzámo-nos meia dúzia de vezes, em Tramagal, nalgumas eucaristias que concelebrou ou nos cafés, por altura das festas de Nossa Senhora da Oliveira, padroeira de Tramagal, tendo trocado simples palavras de circunstância.

Há alguns anos, numa visita à FNAC, descobri o livro "Educação, Ciência e Religião", da autoria do Padre Alfredo Dinis e de João Paiva.





Trata-se de um livro fundamentalmente sobre a relação entre a ciência e a religião, ao longo da história: como se relaciona a religião com a teoria do Big Bang, a evolução das espécies, as questões ambientais, e os desenvolvimentos mais recentes da mecânica quântica, da inteligência artificial e das neurociências?

De seguida, alguns excertos:

"O Deus a quem os cristãos dão crédito é a explicação última do universo e da vida, mas respeita a autonomia e a liberdade dos seres que criou. Não faz tudo porque toma a sério a nossa liberdade. Criou um universo em evolução e respeita a autonomia das suas leis e processos. Saberá tudo? Não saberá senão o que se pode saber? Saberá como vou decidir viver a minha vida nos próximos tempos? Espera para ver e respeita as decisões que eu tomar. A sua omnisciência, a sua perfeição, está mais no serviço do que no poder.
(...)
Deus tem mais a ver com a sabedoria do que com o saber.
(...)
A Bíblia tem um carácter não apenas histórico mas também sapiencial, contendo uma sabedoria de vida mais do que um saber sobre factos.
(...)
Assim como o poeta Camões escreveu que «o amor é um fogo que arde se se ver» e ninguém apaixonado imagina que dentro de si se inicia uma combustão viva e invisível, também a descrição simbólica de Adão e Eva não deve merecer uma leitura literal e descontextualizada do texto bíblico.
Aquele quadro bíblico alude com toda a certeza à crença judaica de que a criação do universo e da vida têm a sua justificação última em Deus, que no seu infinito amor criou (e continua a criar) o universo e a Humanidade. Exprime também a ideia de que a nossa espécie tende a ser «auto-suficiente» e a virar as costas ao Deus-Amor que a criou. Adão e Eva simbolizam toda a humanidade. «Comer a maçã» representa prescindir de Deus e bastar-se a si próprio na compreensão do mundo e do sentido da vida. Comer ou não comer a maçã é ainda, neste sentido, o verdadeiro jogo da liberdade do homem, a tensão de possuir, que é o contrário de se oferecer, de confiar, de se entregar. É este o seu pecado original, isto é, o seu pecado mais profundo.
(...)
Também o teólogo Karl Rahner (1965), jesuíta alemão, escreveu e publicou importantes reflexões sobre estas questões. Para ele, se acolhermos a teoria da evolução das espécies, aceite pela Igreja Católica, Adão e Eva não constituem o casal original do qual descende historicamente toda a Humanidade: eles representam toda a Humanidade. Além disso, o paraíso terrestre não tem de ter existido forçosamente no tempo passado, mas pode ser identificado com a utopia cristã dos novos céus e da nova terra, que só será realidade no final dos tempos. O pecado original não corresponde a qualquer transgressão real das leis de Deus cometida por Adão e Eva, mas refere-se à radical liberdade que cada ser humano tem de dizer um não definitivo a Deus no mais íntimo de si mesmo, liberdade que é tanto de cada ser humano como da comunidade em que vive e, finalmente, de toda a Humanidade.
(...)
Sobre o início da Humanidade, Joseph Ratzinger procura uma explicação com base numa relação dialogal: «A argila tornou-se ser humano no momento em que uma criatura, pela primeira vez, mesmo que de forma muito velada, foi capaz de formar uma ideia de Deus. O primeiro tu que o ser humano - por mais balbuciado que fosse - dirigiu a Deus é o momento em que o espírito se levantou no mundo. Aqui foi ultrapassado o rubicão da criação humana».
(...)
A afirmação de que Deus criou o mundo, afirmação comum ao cristianismo e a outras religiões, não pretende ser uma afirmação científica, no sentido em que esta expressão é hoje entendida. Quererá isto dizer que as explicações científicas e religiosas do mundo são radicalmente diversas, mesmo opostas? A dificuldade em responder a esta questão reside no facto de, por um lado, parecer conveniente distinguir as explicações científicas e religiosas do mundo e, por outro, parecer inconveniente criar um tal dualismo epistemológico que possa ser interpretado como um dualismo ontológico. O aforismo filosófico segundo o qual «distinguir não é separar» é a este propósito muito elucidativo.  
(...)
Um Deus que se inventa? Admitamos que sim... A experiência da fé, muitas vezes, é viver como se esse Deus (inventado?) existisse e ir descobrindo que, afinal, existe mesmo...
(...)
Por outro lado, será necessário rever o vocabulário utilizado nos discursos filosófico e científico tradicionais. Dualismos substancialistas como matéria/espírito, imanência/transcendência, corpo/alma, natural/sobrenatural, bem como as estruturas metafísicas que lhes correspondem, necessitam de uma revisão profunda.
(...)
A corporização das emoções lança alguns desafios à teologia. A alma e o espírito, neste alinhamento, são resultado, de facto, de todas as interacções fisiológicas que o nosso organismo desenvolve e que se efectuam, principalmente, no cérebro. Para o próprio Damásio e para os adeptos da neurobiologia, esta «fisiologização do espírito» não representa qualquer problema. Saber que o amor tem uma sede cerebral não invalida a sua relevância e vitalidade. E a perspectiva de Damásio - entender um cenário material das emoções - não reduz, aliás, a complexidade destas.
Desta verificação até à determinação das relações causa/efeito de toda a emocionalidade vai um passo de gigante. A previsibilidade humana parece não estar escrutinada, nem tão-pouco se lhe augura futuro. Somos seres de relação e teríamos de somar à complexidade da emocionalidade de um ser humano as complexidades dos inúmeros outros seres humanos com quem nos relacionamos. A alma, porventura e sem complexos «incorporada», estará para durar. Talvez os estudos de Damásio e outros equivalentes «empurrem» a teologia para não dicotomizar o corpo e a alma." 

sábado, 13 de maio de 2017

A VERDADE


"A verdade é uma relação. Como tal, cada um de nós recebe a verdade e expressa-a a partir do interior, de acordo com as suas próprias circunstâncas, cultura e situação na vida".

terça-feira, 1 de novembro de 2016

ABÍBLIAGREGATRADUZIDAPARALÍNGUAPORTUGUESAPORFREDERICOLOURENÇO *


No dia 22 de setembro ocorreu a apresentação pública do primeiro de seis volumes de uma obra única: a tradução para português (com apresentação e notas) da Bíblia Grega, a partir do grego clássico (não do atual), realizada por Frederico Lourenço.


A apresentação aconteceu na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen do Centro Cultural de Belém, com a intervenção do autor e de Francisco José Viegas (editor), Miguel Tamen, José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia.  


A Bíblia Grega nasce no Século III antes de Cristo, em Alexandria, com a tradução para grego do Pentateuco (os primeiros cinco livros do Antigo Testamento), por 72 estudiosos judeus (daí ter ficado conhecida por "Bíblia dos Setenta"). Nos séculos seguintes juntaram-se os restantes livros do Antigo Testamento da Bíblia Hebraica e os livros escritos em grego que não fazem parte da Bíblia Hebraica (14 livros do Antigo Testamento e os 27 livros do Novo Testamento).

A Bíblia Grega era a Bíblia do tempo dos judeus contemporâneos de Jesus e das primeiras comunidades cristãs.

A Bíblia Hebraica, que não tem o Novo Testamento, tem 24 livros que, com outra arrumação, correspondem aos 39 livros do Antigo Testamento segundo o cânone protestante.

A Bíblia Católica, relativamente ao Antigo Testamento, acrescenta ainda 7 livros escritos em grego, num total de 46 livros.

A Bíblia Grega, referente ao Antigo Testamento, tem ainda mais 7 livros. No total, a Bíblia Grega tem 80 livros: 53 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. 

Assim, a principal diferença entre as diversas versões reside nos livros que compõem o Antigo Testamento (para além, obviamente, da inclusão ou não do Novo Testamento).

Deste modo, a presente tradução será a Bíblia mais completa que existirá em português.

Até ao final do século XVIII apenas era permitido pela Igreja Católica ler a tradução latina das escrituras hebraica e grega efetuada no século IV por São Jerónimo.

O primeiro português a traduzir a Bíblia para a língua portuguesa, João Ferreira de Almeida, fê-lo, no século XVII, depois de abandonar Portugal e o catolicismo.  

A partir de final do século XVIII passou a admitir-se a tradução, mas apenas com base na versão latina de São Jerónimo - foi o que fez o Padre António Pereira de Figueiredo.

Apenas na segunda metade do século XX surgiram traduções a partir das línguas originais. Assim, o Novo Testamento foi traduzido a partir do grego e o Antigo Testamento a partir da versão  hebraica.

Porém, o texto integral da Bíblia Grega só agora vê a respetiva tradução para a língua portuguesa. 

Outra novidade desta tradução é o facto de a mesma não ter um caráter teológico ou confessional, pretendendo assumir-se como uma tradução "meramente" linguística e literária, como a da Ilíada e da Odisseia já efetuadas por Frederico Lourenço.

Ocorre-me o início do livro "Cultura: tudo o que é preciso saber", de Dietrich Schwanitz:

«... a nossa cultura é uma Mesopotâmia banhada por dois rios, A fonte de um deles jorra em Israel , ao passo que a do outro nasce na Grécia. E os rios são dois textos centrais que abastecem todo o sistema de irrigação da cultura com histórias ricas em nutrientes.
(...)
Os dois textos centrais da cultura europeia são
- a Bíblia judaica
- o duplo poema épico grego sobre o cerco de Tróia - a Ilíada (Tróia chama-se em grego Ílion) - e a Odisseia, a atribulada e errante viagem de regresso do astuto Ulisses da cidade de Tróia destruída para casa e para junto da sua mulher Penélope.
O autor do poema épico grego foi Homero. O autor da Bíblia foi Deus.»

É belíssima a mensagem de Frederico Lourenço, no Facebook, sobre o processo de tradução dos quatro Evangelhos:

«Traduzir os  Evangelhos

Uma pergunta que me está a chegar por vários meios nos últimos dias é: «como foi o processo de traduzir os Evangelhos? Começou no primeiro versículo de Mateus e acabou no último de João?»
A verdade é que o meu processo de tradução não aconteceu com essa linearidade. Comecei com o Evangelho de Marcos, baseado na ideia, hoje incontestada, de que este é o mais antigo dos Evangelhos, portanto um texto verdadeiramente basilar (que, além do mais, serviu de inspiração a Mateus e a Lucas).
Traduzi os primeiros dez capítulos de Marcos, como que numa tentativa de «tomar o pulso» ao texto; mas, traduzidos esses dez capítulos, decidi que não gostei da minha tradução e optei por passar a outro Evangelho, tencionando voltar mais tarde a Marcos para ver se o meu desagrado se mantinha.
Comecei então a traduzir o Evangelho de João, o que foi uma experiência das mais exaltantes de sempre da minha vida: só que o ritmo de tradução, trabalhando o dia inteiro, era mais ou menos o de um versículo por dia (por causa da complexidade das notas explicativas e da dificuldade das opções de tradução). Quando vi o tempo desmesurado que me levara a traduzir o Capítulo 1 de João, optei por deixar esse Evangelho e dedicar-me ao Evangelho de Mateus, do qual traduzi os primeiros dez capítulos (como no caso de Marcos), mas sempre com um ligeiro calafrio em relação à minha tradução: havia qualquer coisa na tradução e nas notas de que eu não estava a gostar.
Foi então que, numa tarde de chuva torrencial, o destino (ou Outra Entidade Superior) decidiu tirar-me as rédeas das mãos. Eu estava sentado no meu pequeno escritório a olhar para o ecrã do computador, onde estava aberto o documento único chamado «Evangelho de Mateus» com todas as respectivas notas. E eis que devo ter feito qualquer disparate - que já não sei reconstituir - que levou o texto primeiro a desconfigurar-se todo e depois a desaparecer do ecrã. Em pânico, em vez de sair do documento sem salvar, premi o comando para salvar o documento. Eu estava descansado porque pensei que na chamada Dropbox o texto estaria incólume. Mas o que aconteceu foi que perdi, para sempre, os primeiros dez capítulos de Mateus, com mais de cem notas de rodapé.
Fiquei em estado de choque durante uns minutos, mas depois percebi que a única maneira de lidar com a situação era de recomeçar imediatamente, enquanto ainda tinha as notas mais ou menos presentes na cabeça.
Recomeçando, depois deste safanão, o Evangelho de Mateus, deu-se um clique que me permitiu encontrar o registo certo de que eu estava à procura, e que até aí me tinha fugido. Daí em diante, fiz sem percalços os 28 capítulos de Mateus (mantendo cada capítulo num documento separado) e devo dizer que foi uma experiência extraordinária. A emoção de traduzir a Paixão de Cristo foi algo que senti à flor da pele - algo que senti mesmo como uma Graça.
Depois deste estado maravilhoso, veio um acordar bem amargo: o processo de traduzir Marcos e Lucas de modo a que todas as palavras iguais em grego nos três Evangelhos ficassem exactamente iguais em português na minha tradução. Devo dizer que alguns tradutores antes de mim (não direi quem...) não se deram a essa estafa: tendo eu sofrido esse processo arrastado e inglório, percebo bem porquê.
Voltando ao Evangelho de Marcos, os dez capítulos inicialmente traduzidos foram todos para o lixo, não por acidente informático, mas porque eu tivera razão ao perceber antes que não estava a gostar da minha tradução. Recomecei Marcos do zero, depois continuei com Lucas (o único Evangelho que consegui traduzir calmamente sem percalços nem estados de choque) e, finalmente, terminei com João.
Em termos de balanço: sem dúvida alguma, o Evangelho que mais me exaltou espiritualmente foi o de João, mas também senti uma emoção fortíssima ao traduzir o Evangelho de Mateus. O prazer de traduzir Marcos e Lucas ficou comprometido por causa da minúcia enlouquecedora, que é necessário respeitar, para que todas as palavras, expressões e frases comuns em grego fiquem rigorosamente iguais na tradução portuguesa. Mas também tenho de dizer que o Evangelho onde mais encontrei surpresas bem fascinantes foi o de Lucas.
Mas disso falarei noutra ocasião.»




Por fim, a entrevista de Frederico Lourenço no programa "Todas as Palavras", da RTP 3:
http://www.rtp.pt/play/p2408/e253587/todas-as-palavras



* No grego clássico escreviam-se todas as letras em maiúscula, não havia espaço entre as palavras e não se usavam sinais de pontuação.