quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

HISTÓRIA

Li-o no Verão de 1980; de vez em quando (e de quando em vez) penso nele. Reencontrei-o esta semana.


Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Berthold Brecht (1898-1956)


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

ESTROFES DA VIDA

Em que estrofe me encontro?
E tu?




O Primeiro Dia

A princípio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por pouco que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

DIFERENÇAS E DISTÂNCIAS

(Muitas vezes) pior do que confrontarmo-nos com a diferença entre o que somos e o que desejámos ser é depararmo-nos com a distância entre o que pensamos ser e o que somos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

CIÊNCIA, NORMATIVIDADE E ARTE

Perante a realidade, podemos ter três tipos de discurso: científico, normativo ou artístico.
O primeiro é da ordem do ser: "A Terra atrai os corpos";
O segundo, da ordem do dever-ser: "Os contratos devem ser cumpridos";
O terceiro, da ordem do meta-ser: "O mito é o nada que é tudo".
Estes tipos de discurso não estão divididos de forma estanque, interpenetram-se, sendo possível (e cada vez mais frequente) encontrar, num mesmo discurso, aquelas várias dimensões.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

DILEMA LÓGICO (continuação)

A solução:
pergunta-se a qualquer das pessoas "Qual a porta que a outra pessoa indicaria se lhe perguntasse qual a porta que conduz à liberdade?" e sai-se pela outra porta,
ou
pergunta-se a qualquer das pessoas "Qual a porta que a outra pessoa indicaria se lhe perguntasse qual a porta que conduz à morte?" e sai-se por essa porta.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

DILEMA LÓGICO

Veio-me à memória um dilema referido por Eduardo Prado Coelho (1944-2007), não me lembro a propósito de quê, numa das suas excelentes crónicas, publicadas sob o título "O Fio do Horizonte", no "PÚBLICO".
Alguém encontra-se fechado numa sala e tem de decidir por qual das duas portas existentes sair.
Uma das portas conduz à liberdade, a outra à morte.
Do lado de fora da sala estão duas pessoas - uma fala sempre verdade, a outra mentira.
Não se sabe qual fala sempre verdade nem qual fala sempre mentira.
Apenas se pode fazer uma pergunta e a uma só das pessoas.
Que pergunta fazer para descobrir qual a porta que conduz à liberdade?