sexta-feira, 16 de abril de 2010

A MORTE DE IVAN ILITCH

No início de 2009, numa livraria, deparei-me com o livro "A Morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstoi, que, na capa, aludia ao "prefácio de António lobo Antunes".
Li o prefácio, com menos de uma página:

"Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte? (...) a morte de Ivan Ilitch é ambas as coisas e transcende tudo isso, para se tornar o retrato implacável da nossa condição: não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente. Tudo o que somos se acha em poucas páginas, escrito de uma forma magistral. Li-as, maravilhado, umas vinte ou trinta vezes, continuarei a lê-las, maravilhado, até ao fim dos meus dias. Maravilhado, exaltado, comovido, a perguntar-me como é que ele conseguiu. E conseguiu."

Comprei imediatamente o livro.

Porém, por razões diversas, não o li logo.

No dia 30 de Junho de 2009 assisti, na Faculdade de Letras de Lisboa, à sessão de encerramento da jornada comemorativa dos 30 anos da publicação de "Memória de Elefante", de António Lobo Antunes.

Essa secção consistiu num diálogo de António Lobo Antunes com Eduardo Lourenço e com o público.

Nessa ocasião, Eduardo Lourenço referiu que não se é o mesmo depois de ler "A Morte de Ivan Ilitch".

Comecei a lê-lo no dia seguinte.

Já tinha lido grandes livros, já tinha lido livros que "foram escritos para mim", mas pela primeira vez senti que estava a ler um livro "sobre mim", "sobre nós".

Pormenor curioso: acabei de lê-lo com a idade com que Ivan Ilitch morreu.

Já o li duas vezes, por inteiro, e, alguns excertos, mais vezes.

Nas próximas três mensagens publicarei os últimos três capítulos do livro, de uma beleza inesquecível.

(Por falar do final do livro, veio-me à memória outro final fabuloso - o de "Os Maias").

quinta-feira, 1 de abril de 2010

GISELLE

No dia 19 de Dezembro de 2009 assisti, no Teatro Camões, ao bailado "Giselle", apresentado pela Companhia Nacional de Bailado, com coreografia de Georges Garcia, a participação da Orquestra Sinfónica Portuguesa e a direcção musical de Geoffrey Styles.
O primeiro bailado a que assisti.
Gostei muito.
Bailado romântico (1841) , com música, belíssima, de Adolphe Adam.
Em dois actos.
O primeiro, em frente à casa de Giselle, numa aldeia junto ao Reno.
A jovem camponesa Giselle (Barbora Hruskova) e Loys (Filipe Portugal) apaixonam-se. Giselle desconhece que Loys é, na realidade, um homem de outra condição social: o Duque da Silésia, de nome Albrecht. No fim do primeiro acto, Hilarion (que ama Giselle) desmascara Loys perante Giselle e Bathilde, noiva de Albrecht. Giselle enlouquece e dança tragicamente, até morrer.
O segundo acto decorre no reino das wilis, na floresta.
As wilis são espíritos de mulheres que morreram por amor e que, durante a noite, se vingam dos seus amados, fazendo-os dançar até à morte. Myrtha, a rainha das wilis, juntamente com outras wilis, executam uma dança de recepção à recém falecida Giselle. Hilarion, arrependido junto ao túmulo de Giselle, não resiste ao feitiço das sedutoras wilis, que o arrastam para uma dança mortal. Surge Albrecht, que deposita um ramo de lírios brancos junto ao túmulo de Giselle. Esta, agora uma wili, levanta-se do túmulo e dança com Albrecht, que tenta resisitir à exaustão. Giselle (que teria motivos para condenar Albrecht) salva-o da perigosa atracção de Myrtha, até que o romper da aurora faz dissipar o feitiço das wilis e Giselle volta para o túmulo, lançando um último adeus ao seu amado, que sobrevive mas fica só.
Alguns dias depois, comprei um DVD com o bailado - do American Ballet Theatre, com a participação da Orchester der Deutschen Oper Berlin - e um CD com a música de Adolphe Adam, interpretada pela Slovak Radio Symphony Orchestra.
Pela primeira vez também, descobri que a música pode contar uma história.






sexta-feira, 19 de março de 2010

INOCÊNCIA

A inocência (nunca totalmente recuperável) é sentir (prazer, dor, etc.) ao (ver, ouvir, fazer, etc.), em vez de sentir (prazer, dor, etc.) por (ver, ouvir, fazer, etc.).

sexta-feira, 5 de março de 2010

NO CAFÉ

B:
Na adolescência, quando comecei a estudar História Universal, equiparava as várias épocas históricas às fases da vida humana individualmente considerada.
Tal como na vida humana, na História houve períodos em que o Homem não falava ou não escrevia.
Tal como na História, o homem atravessa uma fase em que elabora construções mitológicas.
Etc.

A:
Neste momento da tua vida, qual a fase histórica correspondente?
E a Historia, tal como a vida humana, tem uma morte?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

YOUR WORLD IS NOTHING MORE THAN ALL THE TINY THINGS YOU´VE LEFT BEHIND

Gran Torino: o meu filme de 2009; o melhor filme que vi nos últimos anos.

Voltarei a ele.

Por agora, a canção-tema do filme (da autoria de Clint Eastwood, Jamie Cullum, Kyle Eastwood e Michael Stevens), interpretada por Jamie Cullum.













Realign all the stars above my head

Warning signs travel far

I drink instead on my own oh! how I´ve known

The battle scars and worn out beds


Gentle now a tender breeze blows

Whispers through a Gran Torino

Whistling another tired song

Engines humm and bitter dreams grow

Heart locked in a Gran Torino

It beats a lonely rhythm all night long


These streets are old they shine

With the things I´ve known

And breaks through the trees

Their sparkling

Your world is nothing more than all the tiny things you´ve left behind


So tenderly your story is

Nothing more than what you see

Or what you´ve done or will become

Standing strong do you belong

In your skin; just wondering


Gentle now a tender breeze blows

Whispers through the Gran Torino

Whistling another tired song

Engines humm and bitter dreams grow

A heart locked in a Gran Torino

It beats a lonely rhythm all night long


May I be so bold and stay

I need someone to hold

That shudders my skin

Their sparkling

Your world is nothing more than all the tiny things you´ve left behind


So realign all the stars above my head

Warning signs travel far

I drink instead om my own oh! how I´ve known

The battle scars and worn out beds


Gentle now a tender breeze blows

Whispers through the Gran Torino

Whistling another tired song

Engines humm and better dreams grow

Heart locked in a Gran Torino

It beats a lonely rhythm all night long

It beats a lonely rhythm all night long

It beats a lonely rhythm all night long

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AUGUSTO ABELAIRA (1926-2003)

Retrato de Augusto Abelaira por João Abel Manta para a sua primeira crónica no JL


A crónica de Augusto Abelaira no nº 1 do Jornal de Letras Artes e Ideias, de 3 de Março de 1981.


AO PÉ DAS LETRAS


O papel branco, afinal um tudo-nada pardacento

Ao pé da letra? Ao pé das letras? Pego na caneta, olho para o papel branco, afinal um tudo-nada pardacento... O objectivo mais ou menos vago é falar de literatura. Mas, depois de três anos de uma actividade jornalística semanal em que o prato de resistência foi quase sempre a política, os músculos da minha mão perderam o hábito da literatura. E, no entanto, nesse Fevereiro de 1978 que já vai distante, a minha intenção era não a política, talvez também não rigorosamente a literatura, mas um pouco de tudo: num jornal atento fundamentalmente à actualidade eu falaria de passarinhos, de flores, da Lua, de Fellini, de Wagner, de Cesário Verde. E um pouco, porque não?, de sociologia caseira. Por exemplo: a possível influência do cinema mais ou menos pornográfico na cama dos casais portugueses. Etc.

Mas há um certo mimetismo na escrita, como resistir ao ambiente? Em Roma é difícil ser florentino. O Jornal, onde eu escrevia, era essencialmente político, Lisboa também, o PS metia o socialismo na gaveta, Mota Pinto punha-o no caixote do lixo. Como resistir? E lá embarquei eu nas guerras dos partidos e perdi ou ganhei o meu tempo a fazer a análise estilítica dos discursos dos nossos estadistas. Até porque para falar de política basta ler os títulos dos jornais, mas para falar de passarinhos, de flores, da Lua, é preciso ter olhos na cara, tarefa bem mais difícil.

E outra coisa talvez: para um escritor de tradição francesa, intervir na política impõe-se inevitavelmente. O velho mito de que os intelectuais têm uma missão social a cumprir, são os modernos sacerdotes, o velho mito de que exercem influência , o velho mito de que a sociedade está à espera do que eles dizem. Ingenuidade. O escritor vai atrás das palavras sonantes, sacrifica o rigor a um bom dito de espírito, esquece as ideias, não se pode confiar nele.

E então, insensivelmente, um pouco sem querer, lancei ao papel as minhas conversas políticas de café. Por outras palavras: cheguei à conclusão de que as conversas de café poderiam ser investidas no papel de uma forma mais rendosa, a tantos escudos por página. O comércio, em suma. A civilização capitalista. A POLÍTICA.

Somente: escrever sobre política cria hábitos nos músculos da mão, hábitos tão difíceis de combater que custosamente poderei libertar-me deles, como se demonstra pelo retrato presente.

E não sei. Os nomes que da minha caneta desejam sair não são os de Tolstoi ou de Mozart, mas Balsemão, Soares e Cunhal - respeito as hierarquias, como se vê. E então: como bloquear esses hábitos? Como ensinar de novo aos músculos da mão, à própria caneta, que nem só de Balsemão, de Soares ou de Cunhal vive o homem, mas também de Tolstoi e de Mozart? Também das flores e dos passarinhos?

De modo que, deixem-me ensaiar: «Tolstoi, o autor de Guerra e Paz, nascido em mil oitocentos e tal...» Ou: «Mozart, que nasceu em Salzburgo e compôs a Música Maçónica e a Flauta Mágica...»

Não é fácil, distraio-me e continuo: «...se tivessem vivido o suficiente para votar nas últimas eleições...» O cronista político que continua em mim prossegue: teriam votado em...» Hesito, lembro-me do bispo do Funchal que nos proibiu (sem grande êxito, aliás) de votar em candidatos apoiados por maçónicos. Sim, em quem votaria Mozart, que era maçónico? Preciso de o saber para não votar como ele. Quanto ao Tolstoi, nunca esquecerei a infeliz experiência maçónica de Pedro, é pois possível que ele seguisse o conselho do bispo do Funchal. Mas também me lembro do seu enternecimento pelo Platão Karateiev, custa-me a crer que seguisse o conselho do citado bispo.

Bem, começo a educar os músculos da mão, começo a extrair da caneta certos nomes já quase esquecidos. Recomeço, pois, sem quaisquer interferências políticas: «Dostoievski, cujo centenário este ano se comemora...» Mas poder-se-á falar de Dostoievski sem falar de política?

Olho apreensivo para o papel branco, afinal um tudo-nada pardacento da minha próxima crónica.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

AUGUSTO ABELAIRA (1926-2003)


José Gomes Ferreira, Abelaira e Carlos de Oliveira (circa 1968)


Entre a descoberta de Abelaira escritor (final de 1979) e Abelaira cronista (Verão de 1980), descobri Carlos de Oliveira, através da leitura, na disciplina de Português, no 9.º ano, do livro "Uma Abelha na Chuva".

Transcrevo a crónica Escrever na Água, de Augusto Abelaira, publicada no semanário O Jornal, em 3 de Julho de 1981, 2 dias após a morte de Carlos de Oliveira (1921-1981).


ESCREVER NA ÁGUA


Carlos

Não me importa agora que Carlos de Oliveira fosse o autor de algumas das mais belas poesias da língua portuguesa. Nem que tivesse escrito o mais misterioso e envolvente dos nossos romances. E isto nunca lho disse. Um pudor absurdo? Cheguei a afirmar publicamente (mas a ele, nunca) que considerava Finisterra (ou, melhor, Finisterra: paisagem e povoamento, ele irritava-se que lhe cortassem o título) o melhor romance português dos últimos 30 anos. Mas não era verdade - e só o tal pudor impediu que dissesse: de toda a literatura portuguesa (e não esquecendo Os Maias). Coisa que percebi imediatamente após a leitura da prova amorosamente dactilografada pela Ângela em papel azulado. Porque não lho disse se o sentia? Que pudor é este? Talvez não somente pudor, o receio da ironia dele: Você é uma pessoa muito amável e não acreditaria, pensaria que eu estava a lisongeá-lo. E eu não queria que ele pudesse pensar isso de mim. Para ele era mais verosímil uma admiração modesta, ele não tinha verdadeira consciência do livro que escrevera. Rendi-me à falsa verosimilhança.

Mas não importa isso agora, repito, porque mais importante me parece o amigo. E recordo-me de que, com a minha estúpida mania de brincar com coisas sérias, declarei recentemente a um jornal: Não tenho amigos. A hipócrita tentativa de ouvir alguém protestar, de ouvir o próprio Carlos de Oliveira? E estou a ver o rosto magoado, profundamente magoado, dele, quando no dia seguinte o encontrei. Você não será amigo de ninguém, é lá consigo, mas há pessoas que são suas amigas e você não tem o direito de falar como falou. Desejei meter-me pelo chão abaixo, o Carlos de Oliveira era um pouco a voz da consciência, uma consciência que se amava e que se temia. Um desses amigos capazes de sofrer pelos outros. Com os outros.

Mas agora? Carlos de Oliveira era uma das três pessoas com quem eu me habituara a conversar na própria ausência delas. O interlocutor de certos momentos quando eu estava sozinho. Quando escrevia um livro (que pensará o Carlos de Oliveira?). Quando via um bom filme (ele que não ia ao cinema). Quando lia um bom livro. Até quando amava. Sim, que pensará o Carlos de Oliveira? E apesar de vê-lo todos os dias conversava mais com ele quando não estava com ele.

Com quem vou agora conversar quando estiver sozinho, agora que das três pessoas com quem conversava em silêncio já outra morreu alguns tempos antes? E penso nas tantas coisas que lhe disse em silêncio, mas que não me atrevi a dizer-lhe na realidade.

Uma porção de coisas que andavam a afogar-se e que só a ele poderia confessar.

Recentemente fizemos uma aposta. A esquerda ganharia ou não em França? Céptico, eu dissera que não. Ele, que sim. Perdi a aposta que era um jantar. E íamos jantar num dia destes - ainda na terça-feira falámos nisso. Eu decidira ter a tal conversa, pôr em dia as muitas conversas que com ele tivera não tendo. A fascinação de pôr a alma a nu - a certeza de que só ele me saberia ouvir com esse misto de ternura e de ironia que tanto o caracterizava, a sua generosidade sem mácula, a sua prodigiosa capacidade de compreender sentindo-me se aproximar discretamente de nós. O seu conselho. A sua amizade.

Mas agora não é mais possível (continuarei decerto a falar com ele, mas na ausência definitiva). E como se fala com um amigo que se sabe que já morreu, como será possível manter esse teatro?

Quanto os livros... Que importa um livro, mesmo um grande livro, comparado com um amigo generoso?