quinta-feira, 5 de agosto de 2010

MÁ-HORA (continuação)


A porta do gabinete estava aberta. Quando Cátia Vanessa se aproximou, viu Manuel Cá de costas, sentado em frente da secretária, braços assentes nas pernas e o queixo no peito. Imaginou-o deprimido ou envergonhado, mas dormia.
Foi ela quem o acordou. Leu-lhe a acusação. Depois ouviu-o:
"Eles eram companheiros desde há cerca de três anos. Não têm filhos em comum. Ela partiu para Inglaterra há dois anos, deixando os seus quatro filhos com ele (Paulo, Manuel, Fábio e Jessica, a mais nova). Ele, no Inverno, deitava a menina consigo. A acusação não é verdadeira. O que ela pretende é ficar com a casa que lhe foi atribuída (ainda não viviam juntos) aquando da destruição do bairro de lata em que vivia. Ela foi expulsa de Inglaterra porque falsificava documentos de identificação. Ela actualmente tem um amante. Há cerca de um mês, enquanto dormia, ela deu-lhe com uma marreta no braço direito. Ele até deixou de conseguir trabalhar. Depois, foi levado por ela e pelo amante e abandonado inanimado. Até que acordou e passou a viver na rua, nos bancos do Jardim Constantino."
No final, Manuel estendeu o braço direito (o antebraço, deformado, fez lembrar a Cátia um boomerang) e entregou um bilhete de identidade da ex-companheira: o nome não coincidia com a identificação constante da acusação.
Despediram-se até ao julgamento.

À chamada responderam todos os notificados, com excepção do irmão Manuel (com gripe), indicado, à semelhança de todos os demais irmãos e da mãe, como testemunha.
O triunvirato que compunha o Juízo e a representante do Ministério Público eram famosos na Boa-Hora e tinham adquirido recentemente uma grande projecção mediática, por via da intervenção em processos envolvendo personalidades públicas e políticas.
A audiência decorreu à porta fechada - os reformados apostadores de absolvições, condenações e medidas concretas da pena tiveram de se retirar, depois do julgamento antecedente.
A Juíz-Presidente despiu a beca, desceu e aproximou-se da pequena Jessica. Brincou com ela e os outros actores assistiram em anfiteatro. Brincou e perguntou:
"Gostas do Manel? O Manel é teu amigo? O Manel brincava contigo, quando a mamã não estava cá? Dormias com o Manel? O Manel mexia-te nas pernas? E aqui?"
Às duas últimas perguntas a menina respondeu "não". A todas as outras respondeu "sim".
Passou-se à audição das testemunhas, começando pela mãe:
"Quando chegou de Inglaterra (passado mais de um ano), havia reparado, quando dava banho à menina, que ela se tocava. Perguntou-lhe por que fazia aquilo. Quem te ensinou a fazer isso? Ao que ela respondera que fora o pai."
Um dos asas disse: "Minha senhora: eu tenho duas filhas: uma um pouco mais velha que a sua filha; outra um pouco mais nova. E elas também fazem o mesmo. Isso é perfeitamente normal."
Quando chegou a sua vez, Cátia Vanessa não resistiu e, tentando descredibilizar a testemunha, começou:
- Como é que senhora se chama?
- Maria da Conceição Fernandes.
- Então quem é esta Daniela? - questionou Cátia Vanessa, empunhando o bilhete de identidade que Manuel lhe havia entregado.
Quanto às restantes testemunhas, Fábio nada disse que fizesse pender a balança para um ou outro lado.
Apenas Paulo, perguntado sobre sobre se dera por alguma coisa, respondeu que só ouvira falar do assunto depois do regresso da mãe de Inglaterra: sentiu-se na sala que foi a machadada final.
A representante do Ministério Público pediu a absolvição.
Cátia Vanessa, pela primeira vez, não se limitou a pedir justiça e disse fazer suas as palavras da representante do Ministério Público.
O tribunal absolveu o arguido.

Hoje, dez anos depois, desconheço o futuro (hoje passado) de quase todas as personagens: apenas sei, pelos media, que a representante do Ministério Público e dois dos juízes ocuparam posteriormente cargos de nomeação política e, actualmente, encontram-se no Tribunal da Relação de Lisboa.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

MÁ-HORA

O que se segue corresponde ao trabalho realizado no decurso das "oficinas de escrita narrativa" com Mário de Carvalho, no último trimestre de 2004, não reflectindo nem o resultado da apreciação então efectuada por Mário de Carvalho nem as alterações que sofreria se fosse hoje reescrito.


Observação prévia

Trata-se do primeiro esboço de um conto.
O contado não aconteceu.


MÁ-HORA

Cátia Vanessa acabara de receber a correspondência desse dia, trazida por João Pedro, o jovem carteiro que, excepto quando não estava ninguém, a entregava pessoalmente. Teriam sensivelmente a mesma idade e, embora as palavras trocadas fossem normalmente poucas e de circunstância, ambos gostavam daquele encontro matinal, tantas vezes repetido. Cátia Vanessa, que ainda estava sozinha no escritório, sentou-se à secretária, cruzou as pernas (por que razão as mulheres cruzam mais as pernas quando usam mini-saia?), colocou os sobrescritos do seu lado esquerdo, e, no lado direito, a agenda, aberta. De quando em vez, olhava pela janela à sua esquerda e via João Pedro a bater porta a porta até ao fim da rua. Começou por abrir, como era hábito, a correspondência dos tribunais, e, simultaneamente, viu-se, menina, na terra natal, batendo às portas e pedindo: "Bolinhos, bolinhos, à porta dos santinhos". Seria por estarmos perto do dia 1 de Novembro? - ainda ontem lera, na sala de espera do escritório, uma reportagem sobre a noite das bruxas. Acendeu um cigarro e leu a notificação do 3º Juízo Criminal de Lisboa: nomeação oficiosa como defensora do arguido, acusação e data do julgamento. Ainda antes de acabar a leitura de toda a correspondência, toca o telefone.
Cátia Vanessa atendeu: "Ricardo Rodrigues & Associados , bom dia."
- Sou eu, cheguei agora ao escritório. - Era o namorado recente, também advogado estagiário.
- Sabes? - disse ela. - Recebi agora uma oficiosa. Um caso de atentado ao pudor. Um preto com uma menina de 3 anos. Achas que devia pedir escusa? Vou defender um preto violador?
- Vais lá, pedes justiça e recolhes a assinatura. - respondeu ele. - Qual é o juízo? - perguntou ainda.
- É o 3º.
- Olha, então aproveita e vê se consegues recolher mais do que uma. O juiz é porreiraço, normalmente faz logo uma série delas.
- Mas... e se o preto aparece aqui no escritório?
- O quê? Ele não está preso?
-Não, tem só apresentações periódicas.
- Não te preocupes. Ele nem no tribunal vai aparecer, quanto mais aí.
- Sabes? Ainda por cima a miúda estava-lhe confiada. A mãe foi para o estrangeiro e deixou os quatro filhos com o companheiro.
- Olha, contas-me logo o resto. Agora não tenho tempo. - disse Bruno, assustado perante a iminência da audição de todos os pormenores da acusação, glosados e comentados.
- Prontos, tá bem. - reagiu, levemente irritada, Cátia Vanessa. - Foste tu que ligaste. - acrescentou.
- Amor. - retorquiu ele. - Eu quero ouvir-te com disponibilidade, e, até ao fim do dia de hoje, tenho de analisar a legislação e a jurisprudência comunitárias sobre concorrência e aquisições e fusões de empresas para dar um parecer ao meu patrono.
- Tá bem. - assentiu ela. - Até logo. Se te atrasares telefona. Beijinhos.
- Beijinhos. - retribuiu ele.
Alguns dias mais tarde, quando articulava os factos de um acidente de viação, Cátia Vanessa foi interrompida pela secretária do patrono: "Dra. Cátia: chegou um cliente para si. Não estava marcado. É um oficioso. Mandei-o entrar para o gabinete do Dr. Ricardo. É melhor ir rápido, se não daqui a pouco não consegue lá entrar - é um cheiro a catinga, que não se pode."
Cátia Vanessa ficou preocupada, tensa, mas procurou agir, e até sentir-se, como se não o estivesse (desconhecendo a enorme diferença entre estar e estar como se estivesse ou entre ser e ser como se fosse ou entre sentir e sentir como se sentisse). Enquanto percorria o corredor em direcção ao gabinete, questionou-se ("como será ele?"), esticou a mini-saia e abotoou mais dois botões da camisa.

(continua)

domingo, 11 de julho de 2010

MÁRIO DE CARVALHO






















No dia 26 de Abril foi apresentado, na Livraria Barata, com a presença do escritor, o novo livro de Mário de Carvalho, "A Arte de Morrer Longe".
Na sessão de apresentação o actor Diogo Dória leu excertos da obra: a escrita de Mário de Carvalho ganhou uma dimensão para mim desconhecida e insuspeitada.
O meu contacto com a obra de Mário de Carvalho começou a partir da leitura, no primeiro semestre de 2004, de "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina"(2003), a que se seguiram as leituras dos livros "Contos Vagabundos" (2000), "A Sala Magenta" (2008), "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho" (1983) e "A Arte de Morrer Longe" (2010).
Era Augusto Abelaira quem dizia que há dois tipos de escritores: os que escrevem livros diferentes uns dos outros e os que, publicando vários livros, escrevem sempre o mesmo livro.
Abelaira considerava-se pertencente ao segundo grupo.
Mário de Cravalho integra claramente o primeiro.
Na capa de "A Arte de Morre Longe" consta que se trata de um "cronovelema", género que, segundo o próprio autor, junta crónica (não só a jornalística mas também a antiga, à Fernão Lopes), novela, cinema e poema.
Aliás, a primeira referência a este "género" aparece na página 34 de "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina".
"A Arte de Morrer Longe" é um livro sobre um casal jovem - Arnaldo e Bárbara - em processo de divórcio e partilha (de uma tartaruga), sobre o mundo contemporâneo, sobre Lisboa (com a já famosa ode à Avenida de Roma), sobre a escrita, sobre a famosa Lagoa Moura (e Grodemil), sobre a condição humana.
Tudo, aliado a uma escrita imediatamente reconhecível e que justificou que Ricardo Araújo Pereira dissesse que gostaria de escrever, um dia, assim.
Pequena curiosidade: quando lia "A Arte de Morrer Longe", lia, também, algumas partes de "Os Lusíadas".
Eis quando, depois de encontrar Coriolano e Cintialina, amantes potenciais mas nunca concretizados de Bárbara e Arnaldo, respectivamente, me deparo (na estância 33 do canto IV)com Coriolano e Catilina (a par de Sertório), romanos traidores que lutaram contra a sua pátria:

«Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
Catilina, e vós outros dos antigos
Que contra vossas pátrias, com profano
Coração, vos fizestes inimigos:
Se lá no reino escuro de Sumano
Receberdes gravíssimos castigos,
Dizei-lhe que também dos Portugueses
Alguns traidores houve algumas vezes.»

Transcrevo um excerto de "A Arte de Morrer Longe" (págs. 88-91) que me tocou particularmente, com uma extraordinária alegoria da condição humana:

«Pobre tartaruga sem nome, fitando em frente, no seu aquário de acrílico embaciado, conformada por lhe terem propiciado ar respirável, um espaço para movimento, uma água limosa, uma comida lançada suficientemente do alto. Se eu estou bem informado sobre a visão dos quelónios, mais apetrechada para ver ao longe que ao perto, ela distinguiria, à transparência, umas sombras acinzentadas e uns movimentos de claro-escuro, a perpassar. Das vozes e remoques sardónicos em volta aperceberia tão-somente as vibrações negativas. Nada mais lhe chegaria. Haveria apenas, em qualquer lado, causando desconforto, um apelo obscuro e aprazível de vastidões pantanosas, rumorejo de insectos, golpes de sol, entre névoas, sobre confortáveis águas pardas, macias, espessas e sem cloro.
E aí está como as circunstâncias da tartaruga reclusa, no seu exíguo compartimento, desimpedida de movimentar os membros, a cabeça, e de embater contra as paredes do aquário, evocam a condição humana, livre de esbracejar dentro dos seus limites, mas apenas pressentindo, sem os compreender, e sem atingir as suas verdadeiras naturezas, as vozes, os rumores e os relampejos que há em volta.
Afastem-se da terra cinquenta quilómetros, passem a estratosfera, abandonem a gravidade, o que está em cima será igual ao que está em baixo, dando cumprimento à célebre máxima do Hermes Trimegistos, cuja comprovação exige, no entanto, o concurso de poderosíssimos motores. Recuem até à explosão primordial e o vocábulo «antes» deixará de fazer sentido, porque supõe a própria existência do tempo que só então («só então»?) foi criado e atentem na insuficiência da prosa para atingir estas complexas realidades, plantadas no âmago do inefável.
Ora acontece que a origem da quezília entre Arnaldo e Bárbara é tão misteriosa e inalcançável pelos sentidos como o Big Bang ou as fórmulas do esoterismo helenístico. O que existiu para além do começo? Ninguém sabe. A terra está por cima ou por baixo do sol? É indiferente. Tanto Arnaldo como Bárbara passavam boa parte dos seus momentos mais íntimos a tentar reconstituir a forma como tudo tinha começado: a palavra mais áspera, o gesto de brusquidão, o sarcasmo, a desatenção, a indiferença, em suma, o atentado mais primeiro, a causa movens daquela espiral que já ia quase a romper-se. Mas não conseguiam: o que lhes ocorria eram sempre causas segundas, circunstâncias agravantes, remoques e atitudes que vinham acumular-se e crescendo, como pedras que se vão atirando para um poço e que, com a continuação, já fazem diferença e transvazam.
E se cada um deles era bem capaz de elaborar uma completa lista das culpas do outro, nenhum podia, em boa consciência, garantir que elas não eram a resposta a uma provocação que as antecedia, que por sua vez se justificava com uma palavra mal colocada, que, por seu lado... O mais que conseguiam aquelas almas, que até não eram mal formadas, era uma espécie de cegarrega, como a da formiga que tem o pé preso na neve e pede ao Sol que derreta a neve, etc.
A cada dia que passava, as coisas tendiam a agravar-se e o próprio esforço de memória, revolvendo e trazendo ao de cima escórias e impurezas, algumas há muito soterradas e, até, anteriores ao casamento, era um factor de desconforto e afastamento. Como em tudo na vida, a recordação dos bons momentos era abafada pela dos maus, porque o escuro é mais forte que a claridade, e a treva é o estado natural de repouso que não exige nem esforço nem energia.
Sobretudo, naquele casal não existia maturidade que permitisse um exercício recíproco de apaziguamento. Sobrelevavam, por um lado, as exigências de um amor-próprio que não encontrava melhor nem mais fácil aplicação; por outro, o próprio receio do fracasso, não fosse o esforço de conciliação um passo mal dado, a causar mal-entendidos e mais consequências enviesadas.»

No último trimestre de 2004, frequentei "oficinas de escrita narrativa" com Mário de Carvalho, organizadas pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pela revista Ficções, que decorreram na livraria Ler Devagar (então no Bairro Alto, por trás do Pavilhão Chinês).
Publicarei de seguida o fruto do trabalho desenvolvido nessas "oficinas".

sábado, 19 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)


Em 1983, estudante do 12º ano, comprei a 2ª edição do "Memorial do Convento" (hoje obra de leitura no 12º ano...)





O autógrafo de José Saramago, na apresentação do livro "As Intermitências da Morte", no Teatro São Carlos, em 11 de Novembro de 2005.



O endereço - http://www.youtube.com/watch?v=ITNBVO4Dg24 - onde pode ser visto o filme, realizado por Isabel Coutinho, da exposição visitada, em 27 de Julho de 2008, no Palácio da Ajuda.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A MORTE DE IVAN ILITCH

«XII

A partir desse momento começou aquele período de três dias de gritos ininterruptos, tão horrível que mesmo através de duas portas fechadas era impossível ouvir sem pavor. No momento em que respondeu à mulher, compreendeu que estava perdido, que não havia regresso, que chegara o fim, o fim total, e a dúvida ainda por resolver permaneceria dúvida.
- Eh! Eh! Eh! - gritava ele em diferentes tons. Tinha começado por gritar: «Não quero!», e assim continuou a gritar no mesmo som da letra «e».
Durante aqueles três dias, em que o tempo não existia para ele, debateu-se naquele saco negro para o qual o empurrava uma força invisível, irresistível. Debateu-se como se debate um condenado à morte nas mãos do carrasco, sabendo que não se pode salvar; e em cada momento sentia que apesar de todos os esforços de luta estava cada vez mais perto daquilo que o horrorizava. Sentia que o seu sofrimento era também por estar a ser enfiado naquele buraco negro e ainda mais pelo facto de não conseguir entrar nele. Era impedido de penetrar pela consciência de que a sua vida tinha sido boa. Era essa justificação da sua vida que o prendia e o impedia de avançar e que o atormentava mais do que tudo.
De súbito uma força desconhecida atingiu-o no peito e no flanco, oprimindo-lhe ainda mais a respiração, caiu no buraco e ali, no fundo do buraco, qualquer coisa começou a brilhar. Aconteceu-lhe aquilo que lhe costumava acontecer na carruagem do comboio, quando pensava que seguia para a frente e ia para trás, e de repente descobria a verdadeira direcção.
- Sim, nada foi como devia ser - disse a si mesmo. - Mas não importa. É possível, «isso» pode fazer-se. Mas «isso» é o quê? - perguntou a si mesmo e de repente sossegou.
Isto foi no final do terceiro dia, uma hora antes da sua morte. Nesse mesmo momento o aluno do liceu entrou de mansinho no quarto do pai e aproximou-se da cama. O moribundo continuava a gritar desesperadamente e agitava os braços. A sua mão caiu na cabeça do rapaz, que a agarrou, a levou aos lábios e começou a chorar.
Nesse preciso momento Ivan Ilitch afundou-se, viu a luz e revelou-se-lhe que a sua vida não tinha sido o que devia ser, mas que isso ainda podia ser remediado. Perguntou a si mesmo: o que é então «isso», e ficou quieto, à escuta. E então sentiu que alguém lhe beijava a mão. Abriu os olhos e olhou para o filho. Sentiu pena dele. A mulher aproximou-se. Ele olhou-a. Ela olhava para ele com a boca aberta e lágrimas no nariz e na face, olhava-o com uma expressão de desespero. Sentiu pena dela.
«Sim, eu faço-os sofrer», pensou. «Têm pena, mas será melhor para eles quando eu morrer.» Queria dizer isto, mas não tinha forças para falar. «De resto, para quê falar, é preciso fazer», pensou. Com o olhar indicou à mulher o filho, e disse:
-Leva-o daqui... faz-lhe pena... e a ti... - Queria ainda dizer «perdão» mas disse «permissão» e, já incapaz de se corrigir, agitou a mão sabendo que seria entendido por aquele que o devia entender.
E de súbito tornou-se-lhe claro que aquilo que o afligia e não o largava lhe saía de repente tudo de uma vez, e por dois lados, por dez lados, por todos os lados. Tinha pena deles, era preciso agir de modo que não sofressem. Livrá-los a eles e a si mesmo daqueles sofrimentos. «Que bom e que simples», pensou. «E a dor?», perguntou a si mesmo. «Que é dela? Então, dor, onde está tu?»
Ficou atento.
«Sim, cá está ela. Pois bem, deixá-la doer.»
«E a morte? Onde está ela?»
Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto! - disse ele de súbito em voz alta. - Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se! - disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou-se a morte», disse a si mesmo. «Já não existe.»
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Iltch, Leya (BIS), 2008

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A MORTE DE IVAN ILITCH

«XI

Assim se passaram outras duas semanas. Nessas semanas deu-se um acontecimento desejado por Ivan Ilitch e pela sua mulher: Petrichev fez o pedido formal de casamento. Aconteceu à tarde. No dia seguinte Praskóvia Fiódorovna entrou no quarto do marido pensando em como informá-lo do pedido de Fiódor Petróvitch, mas nessa mesma noite deu-se uma mudança para pior no estado de Ivan Ilitch. Praskóvia Fiódorovna encontrou-o naquele mesmo sofá, mas numa posição diferente. Estava deitado de costas, gemia e olhava fixamente à sua frente.
Ela começou a falar dos medicamentos, mas ele olhou-a de tal modo que ela não acabou de dizer aquilo que tinha começado: tal era a raiva contra ela que se exprimia naquele olhar.
- Por amor de Deus, deixa-me morrer em paz - disse ele.
Ela quis sair, mas nesse instante a filha entrou e aproximou-se para dar os bons-dias. Ele olhou a filha do mesmo modo que olhara a mulher e à pergunta dela sobre a sua saúde disse-lhe secamente que em breve os deixaria a todos livres. Ambas se calaram, ficaram sentadas uns momentos e depois saíram.
- Que culpa temos nós? - disse Liza à mãe. - Até parece que fomos nós que fizemos aquilo! Tenho pena do papá, mas para quê atormentar-nos?
O médico chegou à hora habitual. Ivan Ilitch respondia-lhe: «sim, não», sem desviar dele o olhar furioso, e no fim disse:
- O senhor sabe que não me pode ajudar, por isso deixe-me em paz.
- Podemos aliviar o sofrimento - disse o médico.
- Nem isso pode fazer; deixe-me.
O médico saiu para a sala de estar e informou Praskóvia Fiódorovna de que a situação era muito grave e que o único meio para aliviar os sofrimentos, que deviam ser horríveis, era o ópio.
O médico disse que os sofrimentos físicos dele eram horríveis, e isso era verdade; mas mais horríveis que os sofrimentos físicos eram os sofrimentos morais, que eram o seu principal tormento.
Os seus sofrimentos morais consistiam em que naquela noite, ao olhar o rosto ensonado, bondoso e de maçãs salientes de Guerássim, lhe ocorreu de súbito: e se toda a minha vida estivesse errada?
Ocorreu-lhe que aquilo que antes lhe parecia completamente impossível, que não tivesse vivido a sua vida como devia ser, que isso pudesse ser verdade. Ocorreu-lhe que aquelas suas quase imperceptíveis veleidades de luta contra aquilo que as pessoas altamente colocadas consideravam bom, essas quase imperceptíveis veleidades que ele prontamente rejeitava - que elas pudessem ser verdadeiras e tudo o resto falso. E as suas funções oficiais, e o seu regime de vida, e aqueles interesses sociais e oficiais - tudo isso pudesse estar errado. E de repente sentiu toda a fraqueza daquilo que defendia. E não havia nada que defender.
«Mas se é assim», disse para si mesmo, «e eu estou a deixar a vida com a consciência de ter perdido tudo aquilo que me foi dado e que é impossível corrigir, como será?» Deitou-se de costas e pôs-se a rememorar toda a sua vida de modo inteiramente novo. Quando de manhã viu o criado e depois a mulher, depois a filha, depois o médico - cada um dos movimentos deles, cada palavra, confirmava para ele a horrível verdade que se lhe revelara durante a noite. Neles via-se a si próprio, tudo aquilo para que tinha vivido e via claramente que tudo aquilo estava mal, tudo aquilo era um horrível e enorme engano que ocultava a vida e a morte. Essa consciência aumentou, decuplicou os seus sofrimentos físicos. Gemia e agitava-se e puxava a roupa. Parecia-lhe que esta o apertava e o asfixiava. E odiava-os por causa disso.
Deram-lhe uma grande dose de ópio e ele ficou inconsciente; mas à hora do almoço tudo começou de novo. Mandava toda a gente embora e agitava-se de um lado para o outro.
A mulher aproximou-se e disse:
- Jean, meu querido, faz isto por mim (por mim?). Mal não pode fazer, e muitas vezes ajuda. Ora, isto não é nada. Até as pessoas com saúde muitas vezes...
Ele abriu muito os olhos.
- O quê? Comungar? Para quê? Não é preciso. E daí...
Ela começou a chorar.
- Sim, meu amigo? Eu chamo o nosso padre, ele é tão amável...
- Óptimo, muito bem - disse ele.
Quando o sacerdote chegou e o ouviu em confissão, ele acalmou-se, sentiu como que um alívio das suas dúvidas e em consequência disso dos sofrimentos, e teve um momento de esperança. De novo começou a pensar no apêndice e na possibilidade de cura.Comungou com lágrimas nos olhos.
Quando depois da comunhão o deitaram, sentiu-se aliviado por momentos e de novo surgiu uma esperança de vida. Começou a pensar na operação que lhe tinha sido sugerida. «Viver, quero viver», disse para si mesmo. A mulher veio felicitá-lo; disse-lhe as palavras habituais e acrescentou:
- Sentes-te melhor, não é verdade?
Sem olhar para ela, ele disse: sim.
As roupas dela, a compleição dela, a expressão do rosto, o som da voz - tudo lhe dizia a ele a mesma coisa: «Não é o que devia ser. Tudo aquilo por que tu viveste e vives, é tudo mentira, engano, que esconde de ti a vida e a morte.»E assim que pensou isto o seu ódio cresceu, e juntamente com o ódio os cruéis sofrimentos físicos e com os sofrimentos a consciência do fim inevitável e próximo. Havia qualquer coisa nova: uma sensação de aperto, pontadas de sufocação.
A expressão do seu rosto quando disse «sim» era horrível. Depois de proferir esse «sim», olhando-a a direito no rosto, voltou-se de bruços com uma rapidez invulgar para o seu estado de fraqueza, e gritou:
- Vão-se embora, vão-se, deixem-me em paz!»

Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Iltich, Leya (BIS), 2008

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O MUNDO MUDOU

Hoje, de acordo com o prometido, publicaria o penúltimo capítulo de "A Morte de Ivan Ilitch".

Porém, o mundo mudou nos últimos 15 dias.