terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

NO CAFÉ

No café, o menino pergunta à mãe: o que é a beleza?
A mãe responde: é o que sentes quando olhas para uma pintura e gostas (ou para uma paisagem ou uma menina); ou quando ouves uma música.
E o rapaz pergunta: e o que é a beleza se não existirem pessoas?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

GONÇALO M. TAVARES




















Gonçalo M. Tavares é um escritor português, com 40 anos.
Publicou o primeiro livro em 2001 e no último trimestre de 2010 publicou o 27º, o 28º e o 29º.
Já publicou em 7 editoras portuguesas.
Tem cerca de 160 traduções em 35 países.
Recebeu o Prémio LER/Millenium BCP em 2004, o Prémio José Saramago em 2005, o Prémio Portugal Telecom em 2007, o Prémio Internazionale Trieste em 2008 e o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro 2010 em França.
Receberá um dia o Prémio Nobel da Literatura.
Um dos livros publicados em 2010 - «Uma Viagem à Índia», livro começado em 2003 - é, provavelmente, o mais ambicioso dos seus livros.
Trata-se de uma epopeia em prosa (com o mesmo número de cantos e de estâncias de «Os Lusíadas») que fala da viagem de Bloom, de Lisboa à Índia, no início do século XXI.
É um itinerário da melancolia contemporânea.
Transcrevo duas passagens de recentes entrevistas do autor ao «Jornal de Letras, Artes e Ideias» e à revista «LER».
«Se eu sair à rua com um martelo o mundo transforma-se em algo martelável. Só estou a pensar em coisas que podem ser marteladas. Se em vez disso sair com uma chave de parafusos, parecer-me-á que o mundo é aparafusável. Os instrumentos que usamos mudam a nossa percepção. Agrada-me ter uma caixa de ferramentas variada.»
JL, 20 de Outubro de 2010, entrevista de Luís Ricardo Duarte e Maria Leonor Nunes
«(...) Qualquer dia talvez escreva um texto sobre esta questão da narração e das ideias. Esta divisão entre histórias e ideias é uma divisão incorrecta.
Será como a divisão muito estrita entre o corpo e a mente?
Por exemplo, a tradição filosófica oriental ensina muito os conceitos por meio de histórias. A nossa tradição ocidental é muito mais a de explicar o conceito, uma coisa mais teórica, e depois a de utilizar o exemplo. É interessante que seja depois no exemplo que entra a história ou a micronarrativa. Há um autor extraordinário nisso: o Wittgenstein. Ele pensa muito mas pensa através de micro-histórias. A ideia de que a narrativa não pensa ou de que o pensamento não é narrativo é uma ideia em que não me revejo. Gostava de fazer um ensaio a este respeito porque isto é um tema que me parece importante. A boa narrativa pensa, é evidente, e o bom pensamento conta histórias. Pensar não é mais do que contar uma história que é a história de uma ideia. Uma das coisas que eu gostava de desenvolver é esta: porque é que a ideia de narrativa se associa à ideia de personagem? O pensamento é a história de uma ideia. Alguém que pensa está a ter uma ideia que desenvolve ao longo do tempo. Portanto, essa ideia é como se fosse uma personagem que se vai transformando. Tem até opositores. A personagem-ideia tem sempre um inimigo que é o contra-argumento. Pensar é uma narrativa.»
LER, Dezembro 2010, entrevista de Carlos Vaz Marques

sábado, 1 de janeiro de 2011

SEGREDOS

Ele tem um segredo.
Ela tem um segredo.

Ele pensa que conhece o segredo dela.
Ela pensa que conhece o segredo dele.

Ele sabe que ela pensa que conhece o segredo dele.
Ela sabe que ele pensa que conhece o segredo dela.

Ele sabe que ela sabe que ele pensa que conhece o segredo dela.
Ela sabe que ele sabe que ela pensa que conhece o segredo dele.

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domingo, 12 de dezembro de 2010

EGOÍSMO E ALTRUÍSMO

Eram (aparentemente?) parecidos:
um, egoísta, ajudava os outros pelo prazer que isso lhe proporcionava;
outro, altruísta, não ignorava que ninguém pode gostar dos outros se não gostar de si.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ARTE E VIDA

A arte inspira-se na vida.
A arte molda a vida.
A melhor forma de arte é a arte de viver.

domingo, 14 de novembro de 2010

LINGUAGEM CLARA

Três amigos encontraram-se, como habitualmente, na cibertaberna da aldeia: Manuel, viticultor; Joaquim, silvicultor; António, suinicultor.

Todos os dias, após o jantar, dedicavam-se à leitura, nos magalhães dos respectivos filhos, do Diário da República electrónico.

No dia 13 de Outubro ficaram particularmente agradados com o início da publicação de «resumos em linguagem clara» dos decretos-leis e dos decretos regulamentares, uma medida do SIMPLEGIS, por sua vez integrado no SIMPLEX.

Quando verificaram que o primeiro diploma com tal resumo era um decreto-lei do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, ficaram curiosos.

O «resumo em linguagem clara» é o seguinte:

«O que é?
Este decreto-lei desobriga os agricultores de pagar a taxa de audiovisual.
O que vai mudar?
A taxa de audiovisual serve para financiar o serviço público de rádio e televisão e é cobrada indirectamente na factura da electricidade.
Com este decreto-lei, os agricultores deixam de ter de pagar a taxa de audiovisual correspondente à energia que consomem na actividade agrícola. Para isso, os agricultores têm de ter contadores eléctricos que permitam medir em separado a energia que usam apenas para a agricultura.
Quando entra em vigor?
Este decreto-lei entra em vigor cinco dias após a sua publicação.»

Imediatamente se gerou a confusão: quem seria abrangido pela isenção?

Então, António sugeriu que lessem o próprio diploma.
Segundo o referido decreto-lei, a isenção reporta-se aos consumidores «cuja actividade se inclua numa das descritas nos grupos 011 a 015, da divisão 01, da secção A, da Classificação das Actividades Económicas - Revisão 3 (CAE - Rev. 3), aprovada pelo Decreto-Lei n.º 381/2007, de 14 de Novembro».
De seguida, ainda no Diário da República electrónico, pesquisaram o Decreto-Lei n.º 381/2007 e, após consulta da Classificação das Actividades Económicas publicada em anexo, concluíram que o viticultor (grupo 12) e o suinicultor (grupo 14) beneficiam daquela isenção e que o silvicultor (grupo 21) não.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

NO CAFÉ

A:
Só há duas maneiras de reduzir o défice orçamental (em percentagem do PIB): ou aumentar a receita ou diminuir a despesa.
B:
Há uma terceira.
A:
Sim: aumentar a receita e diminuir a despesa.
B:
Há uma quarta.
A:
Qual?
B:
Aumentar o PIB.