quarta-feira, 24 de agosto de 2011

TRAMAGAL

O meu «Paris, Texas».



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO

António Menezes Cordeiro é Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Tive o privilégio de o ter como professor e de ler parte da sua obra.
É o melhor jurista que conheci até hoje: «tal é, salvo melhor opinião, o meu parecer» (como diria Menezes Cordeiro).
«Reencontrei-o» na internet, num vídeo com um excerto da sua intervenção na conferência do Instituto de Direito Económico, Financeiro e Fiscal da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, realizada no dia 4 de Novembro de 2009, subordinada ao tema «Crise e Direito».




Por fim, vieram-me à memória as palavras proferidas por Menezes Cordeiro no final da minha última aula na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que foram mais ou menos estas:
«Na vossa actividade de jurista, se se virem confrontados, perante um determinado problema, com duas soluções - uma (aparentemente com suporte legal) injusta e outra justa (aparentemente sem base legal) - optem pela justa, porque o Direito certamente consagra(rá) essa solução.»

quinta-feira, 28 de julho de 2011

CAUSALIDADES

«Preciso de comer porque tenho fome» ou «tenho fome porque preciso de comer»?
Parece que há duas «causalidades»: a «causalidade» que nos leva a agir (a primeira) e a «causalidade» que explica (a última).
Só o Homem pode ter consciência desta diferenciação e apenas no Homem pode haver conflito entre aquelas «causalidades».

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MÁRIO CLÁUDIO - TIAGO VEIGA

Mário Cláudio acaba de publicar «Tiago Veiga - Uma Biografia», aparentemente na linha de anteriores biografias romanceadas: «Amadeo» (Amadeo de Souza-Cardoso), «Guilhermina» (Guilhermina ) e «Rosa» (Rosa Ramalho).
Tiago Veiga (1900-1988) é um poeta modernista, bisneto de Camilo Castelo Branco, nascido no Brasil, casado com uma francesa e, depois, com uma irlandesa, e falecido (por suicídio) no Alto Minho, onde se refugiou no fim da vida.
Foi um cosmopolita e um viajante compulsivo.
Viveu em Itália, Paris, Londres, Galiza, Porto, Lisboa, Marrocos, Guiné-Bissau, Nova Iorque.
O poeta optou pelo anonimato em vida, não publicou nenhuma obra, mas relacionou-se com grandes nomes da política e das literaturas portuguesa e europeia, incluindo com Mário Cláudio, o qual admite ter sido por ele influenciado em termos literários.
A primeira pessoa que falou de Tiago Veiga a Mário Cláudio foi Mário Sottomayor Cardia, quando eram ambos estudantes de Direito em Lisboa.
Conheceu-o pouco tempo depois, mas as relações só se intensificaram muitos anos mais tarde, quando Tiago Veiga o começou a ver como seu futuro biógrafo.
Foi Tiago Veiga quem, segundo Mário Cláudio, lhe impôs a escrita da sua biografia.
Nesta constam fotografias de alguns ascendentes de Tiago Veiga, da «Casa dos Anjos», do poeta em várias fases da vida, das esposas francesa e irlandesa, da filha e do filho, de Tiago com Mário Cláudio em 1984, bem como de pinturas do poeta.
A capa do livro de Mário Cláudio é composta a partir do quadro «Os Cavalos de Danaan», da mulher irlandesa de Tiago Veiga, Ellen Rassmunsen.
O biografado deixou também uma «arca», tendo Mário Cláudio procedido já à publicação póstuma de três das suas obras: «Os Sonetos Italianos de Tiago Veiga» (2003), «Gondelim» (2008) e «Do Espelho de Vénus» (2010).
De resto, no próprio «Tiago Veiga - Uma Biografia» são divulgados muitos inéditos do escritor.
O poeta, embora nunca tenha publicado, criou um pseudónimo: Rodrigo de Matos.
Porém, se exceptuarmos as referências e a actuação de Mário Cláudio, ninguém conhece Tiago Veiga.
Os críticos literários consideram tratar-se de um «heterónimo» não assumido de (e por) Mário Cláudio ou de uma «nova teoria da heteronímia» (Miguel Real).
A primeira referência pública a Tiago Veiga foi em 1988, num artigo de Mário Cláudio, no ex-semanário «Tempo», em que era anunciada a sua morte.
A literatura é («nem só mas também») um jogo. Não é, Augusto?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

VICTOR CUNHA REGO (1933-2000)



*


«É uma velha história sufi. Um homem atravessava, uma tarde, a praça do mercado quando alguém lhe puxou pela manga. «Eu sou a Morte», disse a figura. «Vim para te avisar que temos encontro marcado às seis da manhã.» O homem ficou muito assustado, mas pensou que poderia fazer bom uso da informação adiantada. Vendeu o que tinha rapidamente, comprou os três melhores e mais rápidos cavalos que havia na cidade e lançou-se através do deserto em direcção a uma cidade distante, onde tinha a esperança que a Morte não conseguisse encontrá-lo.

Cavalgou toda a noite, como o vento, esgotando cavalo após cavalo, até que, aproximando-se as seis horas da manhã, chegou a um pequeno oásis, onde desmontou para beber água antes de continuar a viagem. Quando se encaminhava para o poço, uma figura silenciosa que estava sentada ao lado deste olhou o relógio e levantou-se, dizendo: «Curioso. Eu ia jurar que o senhor não conseguiria chegar a horas!»

Não vale a pena fugir. Nem, pelo contrário, procurá-la. Ela tem a sua hora e é pontual.

Na última das análises, é a nossa concepção da morte que decide todas as respostas às perguntas que a vida nos faz.

Conscientes do nosso fim, tudo passa a ter sentido numa vida tão curta. Com o sentido, vem a necessidade de lhe desvendar o segredo e a descoberta só pode ser feita quando se chega ao coração. É preciso, nessa altura, abrir de par em par o coração ao corpo da vida. É assim que se cresce e é possível ter paz.

«A vida e a morte são uma só, tal como o rio e o mar são um só.» Khalil Gibran sabia do que falava.»


*

«Portugal dificilmente poderia escapar à vaga europeia que representa a terceira grande guerra do capitalismo. Depois de, com a Revolução Francesa, ter tido início a contradição entre o capitalismo e o Estado monárquico e depois de o Estado republicano ter conseguido enquadrar o capitalismo, estamos a viver a tentativa de o capitalismo substituir o próprio Estado.

Não podia o País escapar às quatro grandes linhas desta mutação. A primeira consiste na desculpabilização do dinheiro. A segunda no triunfo do individualismo. A terceira na competição, com visíveis consequências, no mundo do trabalho. A quarta na uniformização dos comportamentos, em particular sob a influência da televisão e, já em parte, da informática.
(...)

Não haja ilusões. O capitalismo venceu o Estado monárquico no fim do século XVIII. O Estado venceu o capitalismo no fim do século XIX. Agora o capitalismo não quer somente vencer de novo: quer destruir o seu inimigo amolecido por erros e vícios que alguns de nós pudemos ver e criticar.»


*


« (...)
É impossível globalizar o que é diferente e, mais, é antagónico. A Malásia não é a Hungria, o Brasil não é a Índia, a Alemanha não é a China, o Japão não é a Rússia, o Chile não é o Egipto.

Talvez com muitas e imprevistas tensões seja possível uma União Europeia.

Mas globalizar as relações mundiais, sendo impossível, é um desastre para dezenas de povos, culturas e Estados. (...)

(...)

A globalização não é apenas o digital ou o telemóvel. É a imposição de regras económicas uniformizadoras que implicam normas jurídicas e políticas semelhantes. Pressupõe um homem novo ainda mais utópico do que o comunista.»


*

« No último Independent on Sunday muitos ingleses dizem aquilo que a maioria de nós todos, os que já não têm 20, 30 ou 40 e tal anos, sente: how lucky we are not to be young.

Hoje, de Portugal à Argentina, com vinte ou trinta e tal, vive-se preocupado pela renda ou prestação da casa, pelo infantário ou colégio dos filhos - e mesmo pela dúvida de se deve ter filhos -, o emprego, a compra do carro, do hi-fi, do computador pessoal, etc.

Com quarenta e tal, o emprego é a angústia maior, em particular na Europa, mas a droga nas escolas e nas ruas, os gastos com os filhos, a troca de casa ou de bens de consumo são, igualmente, agressões psicológicas com repercussões físicas.

Mas os que estão acima dos 50 anos e não participaram nas guerras ou totalitarismos tiveram o privilégio, em quase todo o mundo, de melhor ensino, juventude sem droga, moderação no consumo, pleno emprego (...), sem grandes dificuldades na habitação, sem burocracia paranóica e sem a tragédia do trânsito actual.

(...) pela parte que nos toca, contamos viver com imprescindíveis sofrimento e prazer os próximos tempos e deixar para os outros o século XXI, que, por laxismo, comodismo e patetice dos que têm 20, 30, 40, 50 anos, sem distinção, pode vir a ser uma embrulhada colossal, pressentida desde já.»


*

«Recusam-se a pensar.

Mesmo a apenas três dias do Natal, o momento em que Deus se fez homem na palha de uma gruta, a maioria das pessoas precipita-se atrás de tudo o que pensa ser diversão, entretenimento, consumo, modismo.

Vão acabar exaustos, atordoados de tanta correria. É como se estourassem de inconsciência, na periferia de si próprios e de um mundo de cujo mistério sem sequer querem ouvir falar.

São multidões de solitários. Fogem de qualquer luta, afrouxam-se em submissões, aceitam não ser donos deles mesmos.

Nem sequer sabem que estão sós porque a solidão desliza sobre eles sem deixar vestígios como a água nas penas dos cisnes.

Todos nós somos convidados para entrar num castelo, diariamente, vá lá saber-se por quem. Pode o castelo estar cheio de esplendores e de multidão ruidosa que não deixará de acabar em sepulcro, mais depressa do que seria de esperar, se não desconfiarmos dessa exaltação de fraquezas e se, quando ficarmos sem fôlego, não soubermos que esse é o momento de nos reencontrarmos, reconquistando a dignidade e a personalidade.

O castelo é um inferno onde cada instante é um milagre. Agarrar esses instantes, que formam o tempo, escapar da ladainha dos que mergulharam no ruído, viver como um desafio, ter a honra de não se submeter a quem não merece submissão e de depender do amor de quem merece essa dependência, é o que deveria ser - se pensássemos.

Mas só quando se está cansado de nunca estar só é possível vencer a violência da solidão e pensar no que vale a pena.

As coisas são o que são.»


*

«Um mês sem escrever. Depois, por respeito pelo DN e por Mário Bettencourt Resendes, que, vão seis anos e meio, me convidou para esta bancada de cinco dias semanais, voltei durante duas semanas. Elas chegam ao fim na sexta-feira próxima.

Não há balanços a fazer. Mas há alguns pontos a recordar.

(...)

(...) não hesitei em tornar esta coluna num exemplo de perplexidade, numa época em que as revoltas mal conseguem articular-se, desfazendo-se como bolas de sabão sopradas pelos lábios.

Nesse campo não escondi achar que as nossas dores são demasiado tímidas. As dores, os medos, as espontaneidades, os amores, os ódios são demasiado tímidos. Trocamos a ousadia pelo entretenimento.Pensamos pouco, mergulhamos em tarefas neuróticas e só queremos como compensação divertirmo-nos o máximo possível. Divertimo-nos em vez de vivermos. Dilapidamos a inteligência e cortejamos a tolice. Mantemo-nos na periferia de nós próprios, recusando o mistério que se desenrola na alma.

De certa forma, esta coluna passou anos a combater essa diminuição da ecologia da alma. Se tivéssemos de escolher um ser amado, um herói, escolheríamos Job, que jamais se curvou - nem a Deus - perante a evidência de um mundo iníquo.»




E, após a leitura desta referência a Job, não posso deixar de assinalar a coincidência (cósmica) da recente estreia, em Portugal, do último filme de Terrence Malick, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, A Árvore da Vida, que começa precisamente com uma citação do Livro de Job (38 - 4, 7): «Onde estavas tu quando lancei os fundamentos da Terra? (...) entre as aclamações dos astros da manhã e o aplauso de todos os filhos de Deus?



quarta-feira, 29 de junho de 2011

VICTOR CUNHA REGO (1933-2000)


















Victor Cunha Rego (VCR) foi jornalista, exilado político (no Brasil, Argélia, Jugoslávia e Itália), político (fundador do Partido Socialista, chefe de gabinete de Mário Soares, secretário de Estado, apoiante da Aliança Democrática), director do Diário de Notícias, criou a editora Perspectivas & Realidades, foi embaixador em Espanha, presidente da RTP, primeiro director do Semanário.


No período final da vida, foi cronista diário na última página do Diário de Notícias, entre 1992 e 1999.


Não conheci ninguém que no jornalismo que conseguisse dizer tanto, e tão bem, em tão pouco espaço.


A clareza, a concisão, a estrutura textual, a riqueza de conteúdo, o brilhantismo da linguagem e a lucidez fascinavam-me diariamente.


A sensação, quando se lia, era a de que (tal como nas notas de Mozart) não havia palavras a mais nem a menos.


Não foi o primeiro nem o último a arriscar a crónica diária: já referi, na mensagem de 21 de Janeiro de 2010, Augusto Abelaira, no Século; depois de VCR, Eduardo Prado Coelho também aceitou esse desafio, no Público, com a crónica O Fio do Horizonte.


Nesta mensagem e na próxima reproduzirei, a título ilustrativo, algumas passagens das referidas crónicas que, hoje, doze, catorze, dezanove anos depois, acrescentam, às qualidades já referidas, mais duas que VCR possuía: a clarividência de ver (e analisar e expor) o que fica depois de tudo o que passa e a capacidade de previsão própria de quem tem aquela lucidez.


Era um homem que (referiu-o numa entrevista) gostava de visitar cemitérios.


*

«Global, hoje, é a mentira da venda de uma «sociedade de emprego», que já não existe mas que ainda nos avalia e nos faz andar a toque de caixa. Global é a mentira de uma «economia de mercado» que também já acabou e deu lugar a uma economia virtual e especulativa. Global é a chantagem do discurso «antipessimista», ele, sim, calculadamente pessimista porque aprisiona as pessoas às suas cabalas.
(...) começa a haver razões para crer que os actuais líderes políticos europeus, cujo pensamento se desconhece, ao contrário do que sempre sucedera na Europa, saibam dos crimes que a actual mentira global comporta.

Tornam-se, assim, cúmplices dos que dirigem o casino.

(...) o culto da rentabilidade - e é nesse sentido que tantos também querem mais educação - no lugar do culto da dignidade pessoal e do Estado acabará por impor a sua mentira global.

A Europa não está condenada por ser velha. Está muito fraca porque a sua economia é já virtual.

(...)»

*

«É curioso serem alguns filósofos norte-americanos - e nada comunistas - a tentarem recuperar para o Manifesto Comunista os méritos que lhe pertencem e que a esquerda internacional tem espezinhado com o mesmo oportunismo com que os endeusou.

De facto, mais importante do que o Manifesto só o Novo Testamento. Ambos falharam, até agora, nas profecias da redenção, mas sem eles o mundo seria ainda muito pior.

Foram os Evangelhos e a fraternidade, simultaneamente divina e humana, de Cristo que mais cedo puseram em guarda as almas contra o poder do dinheiro e a submissão ao mercado - que de forma reguladora necessária passou a substância dominadora hegemónica. Foi o Manifesto que impulsionou os sindicatos modernos e levou os trabalhadores a exigirem uma parcela do poder político. Se, como escreve Richard Rorty, substituirmos «burguesia» pelos vinte por cento que controlam a imensa riqueza entretanto gerada e o «proletariado» pelos outros oitenta por cento, muito do que ficou escrito no Manifesto mantém a sua lógica e veracidade.

Falou-se apressadamente no fim da História. Agora a moda é declarar a economia dos ricos - com a norte-americana à frente - para além da História. Como se ela não continuasse a basear-se no princípio mais velho de todos: o de que as pessoas que se apoderam do dinheiro e do poder farão tudo para que os descendentes os monopolizem para sempre. História é a luta entre esses monopolistas e a ética da humanidade.

O além da História? Vamos servir de chocas nessa cernelha?»


*

«Tudo serve para lavar capitais: os bilhetes premiados das lotarias, os grandes «concertos» multitudinários, as universidades espaventosas, os casinos, os grandes acontecimentos desportivos, o negócio dos grandes empórios de roupas ou carros são alguns dos domínios - «artesanal» ao «industrial» - em que se transformaram as modestas lavandarias de Chicago dos anos 20.

E, é claro, o dinheiro que já foi possível depositar nos bancos ou investir no mercado de capitais constitui a «melhor» lavagem.

O grosso é da droga. Mas há outras fontes de receita como as clássicas armas, a velha prostituição ou a nova pedofilia.

Pelas informações que nos chegam, no Sul do Senegal - a zona onde a Guiné meteu o dedo - planta-se droga para comprar armas a fim de alcançar o poder e receber o dinheiro do... petróleo. Quadro mais clássico não se arranjaria.

Com a Internet, a lavagem é rapidíssima. Disse-o, pela primeira vez, o FBI.

Com o euro - ou no decurso da passagem para o euro -, a lavagem poderá ser enorme.

Já se sabia, mas nunca é de mais recordar.

E, assim, cada vez mais, todos nós, sem excepção, nos tornamos cúmplices passivos do crime organizado.

Não podemos, muitos de nós, ser acusados de tirar proventos desse facto ou, sequer, de favorecê-lo.

Mas ao não nos rebelarmos contra um sistema - o nosso - que gira dessa forma, somos o que somos.

Hipócritas e oportunistas? Mais, mais.

A desculpa é a de nem darmos por isso.»


*


«Ainda ninguém, entre os políticos, nos disse a verdade (...). Ninguém nos disse que o emprego deixou de ser um direito garantido e o crescimento deixou de ter taxas asseguradas. Tudo depende agora das empresas e das suas relações competitivas. Vivemos uma revolução, mas, como o sistema de direitos europeus ainda não desabou, pensamos estar a viver uma evolução.

Os governos calam-se, porque só pensam em vencer eleições e perpetuarem-se. As oposições calam-se, porque têm sido coniventes na decadência.

Governos e oposições sabem ser impossível manter o modelo social europeu a partir do disparo da globalização. Mas ninguém fala. Guardam, como as mafias, a lei do silêncio e vêem em cada ano que passa sem desmoronamentos uma prova da sua argúcia.

Não é possível prever quem vencerá quando houver resistência dura às mudanças. Os velhos, só por eles, não conseguirão transformar-se em guerreiros. Mas se os outros descobrirem que um dia, fatalmente, serão velhos - uma descoberta mais difícil do que parece - a resistência pode ser grande.
E tão irracional quanto o que se omite é despudorado.»


*



«O primeiro dia de um ano - o de amanhã - é o envolvimento contraditório do antes pelo depois. Ainda somos o que vamos deixar de ser e já somos o que seremos - dizia Paul-Eugéne Charbonneau nos tempos em que valia a pena falar assim.

Valia a pena falar, e escrever, assim porque as pessoas pensavam e, pensando, davam-se conta da quarta dimensão que lhes é exclusiva: fora da consciência o tempo apenas é suportado.

É a consciência dramática do tempo vivido pelo homem que explica como esse tempo - irregular, desigual, acidentado, repleto de rupturas - não consegue esconder a caminhada para o infinito. Todas as especulações filosóficas não mudam o facto de sermos viajantes e de a nossa viagem ser irreversível.

Acontece que para muitos se o passado não foi belo - e às vezes terá sido -, o futuro não terá melhor aspecto - embora possa vir a tê-lo.

Ora no pressentimento de tempos difíceis não há alegrias que sobrevivam.

Com os hábitos que as «audiências» (o barulho) nos impuseram não chegamos, sequer, a pensar no que nos rouba tanto a alegria quanto a dor e nos entrega à barbaridade do soporífero, da repulsa da entrega e da incapacidade da razão.

Em qualquer caso não fará mal fazer de conta que este primeiro dia de Janeiro é uma promessa da qual os corações necessitam para sobreviver. E compreender a euforia que ainda se apodera de alguns esperançados em que os novos horizontes sejam radiosos.

Mas será conveniente não esquecer que não é o tempo que passa, nós é que passamos.

Porque, fazendo assim, pensamos.»

terça-feira, 31 de maio de 2011

RODRIGO LEÃO

Memória da noite de 6 de Julho de 2007, junto à Torre de Belém.