terça-feira, 16 de janeiro de 2018

POR ESTE RIO ACIMA


De volta à musica, com uma música inesquecível de um dos melhores discos do último quartel do século XX (1982), baseado na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.




O barco vai de saída
Adeus ao cais de Alfama
Se agora vou de partida
Levo-te comigo ó cana verde
Lembra-te de mim ó meu amor
Lembra-te de mim nesta aventura
P'ra lá da loucura
P'ra lá do Equador

Ah mas que ingrata ventura
Bem me posso queixar
da Pátria a pouca fartura
Cheia de mágoas ai quebra-mar
Com tantos perigos ai minha vida
Com tantos medos e sobressaltos
Que eu já vou aos saltos
Que eu vou de fugida

Sem contar essa história escondida
Por servir de criado dessa senhora
Serviu-se ela também tão sedutora
Foi pecado
Foi pecado
E foi pecado sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa


Gingão de roda batida
corsário sem cruzado
ao som do baile mandado
em terras de pimenta e maravilha
com sonhos de prata e fantasia
com sonho da cor do arco-íris
desvairas se os vires
desvairas magias

Já tenho a vela enfunada
marrano sem vergonha
judeu sem coisa nem fronha
vou de viagem ai que largada
só vejo cores ai que alegria
só vejo piratas e tesouros
são pratas, são ouros,
são noites, são dias

Vou no espantoso trono das águas
vou no tremendo assopro dos ventos
vou por cima dos meus pensamentos
arrepia
arrepia
e arrepia sim senhor
que vida boa era a de Lisboa


O mar das águas ardendo
o delírio do céu
a fúria do barlavento
arreia a vela e vai marujo ao leme
vira o barco e cai marujo ao mar
vira o barco na curva da morte
e olha a minha sorte
e olha o meu azar

e depois do barco virado
grandes urros e gritos
na salvação dos aflitos
estala, mata, agarra, ai quem me ajuda
reza, implora, escapa, ai que pagode
rezam tremem heróis e eunucos
são mouros são turcos
são mouros acode!

Aquilo é uma tempestade medonha
aquilo vai p'ra lá do que é eterno
aquilo era o retrato do inferno
vai ao fundo
vai ao fundo
e vai ao fundo sim senhor
que vida boa era a de Lisboa

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

P. ALFREDO DINIS, SJ






O Padre jesuíta Alfredo Dinis nasceu em Tramagal, em 1952, e faleceu em 2013, em Braga.

Licenciado em Filosofia e Humanidades pela Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa.

Licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma.

Mestre e doutor em História e Filosofia da Ciência pela Universidade de Cambridge.

Professor e director da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa.

Foi ordenado, em 2 de julho de 1983, numa missa campal em Tramagal.

Cruzámo-nos meia dúzia de vezes, em Tramagal, nalgumas eucaristias que concelebrou ou nos cafés, por altura das festas de Nossa Senhora da Oliveira, padroeira de Tramagal, tendo trocado simples palavras de circunstância.

Há alguns anos, numa visita à FNAC, descobri o livro "Educação, Ciência e Religião", da autoria do Padre Alfredo Dinis e de João Paiva.





Trata-se de um livro fundamentalmente sobre a relação entre a ciência e a religião, ao longo da história: como se relaciona a religião com a teoria do Big Bang, a evolução das espécies, as questões ambientais, e os desenvolvimentos mais recentes da mecânica quântica, da inteligência artificial e das neurociências?

De seguida, alguns excertos:

"O Deus a quem os cristãos dão crédito é a explicação última do universo e da vida, mas respeita a autonomia e a liberdade dos seres que criou. Não faz tudo porque toma a sério a nossa liberdade. Criou um universo em evolução e respeita a autonomia das suas leis e processos. Saberá tudo? Não saberá senão o que se pode saber? Saberá como vou decidir viver a minha vida nos próximos tempos? Espera para ver e respeita as decisões que eu tomar. A sua omnisciência, a sua perfeição, está mais no serviço do que no poder.
(...)
Deus tem mais a ver com a sabedoria do que com o saber.
(...)
A Bíblia tem um carácter não apenas histórico mas também sapiencial, contendo uma sabedoria de vida mais do que um saber sobre factos.
(...)
Assim como o poeta Camões escreveu que «o amor é um fogo que arde se se ver» e ninguém apaixonado imagina que dentro de si se inicia uma combustão viva e invisível, também a descrição simbólica de Adão e Eva não deve merecer uma leitura literal e descontextualizada do texto bíblico.
Aquele quadro bíblico alude com toda a certeza à crença judaica de que a criação do universo e da vida têm a sua justificação última em Deus, que no seu infinito amor criou (e continua a criar) o universo e a Humanidade. Exprime também a ideia de que a nossa espécie tende a ser «auto-suficiente» e a virar as costas ao Deus-Amor que a criou. Adão e Eva simbolizam toda a humanidade. «Comer a maçã» representa prescindir de Deus e bastar-se a si próprio na compreensão do mundo e do sentido da vida. Comer ou não comer a maçã é ainda, neste sentido, o verdadeiro jogo da liberdade do homem, a tensão de possuir, que é o contrário de se oferecer, de confiar, de se entregar. É este o seu pecado original, isto é, o seu pecado mais profundo.
(...)
Também o teólogo Karl Rahner (1965), jesuíta alemão, escreveu e publicou importantes reflexões sobre estas questões. Para ele, se acolhermos a teoria da evolução das espécies, aceite pela Igreja Católica, Adão e Eva não constituem o casal original do qual descende historicamente toda a Humanidade: eles representam toda a Humanidade. Além disso, o paraíso terrestre não tem de ter existido forçosamente no tempo passado, mas pode ser identificado com a utopia cristã dos novos céus e da nova terra, que só será realidade no final dos tempos. O pecado original não corresponde a qualquer transgressão real das leis de Deus cometida por Adão e Eva, mas refere-se à radical liberdade que cada ser humano tem de dizer um não definitivo a Deus no mais íntimo de si mesmo, liberdade que é tanto de cada ser humano como da comunidade em que vive e, finalmente, de toda a Humanidade.
(...)
Sobre o início da Humanidade, Joseph Ratzinger procura uma explicação com base numa relação dialogal: «A argila tornou-se ser humano no momento em que uma criatura, pela primeira vez, mesmo que de forma muito velada, foi capaz de formar uma ideia de Deus. O primeiro tu que o ser humano - por mais balbuciado que fosse - dirigiu a Deus é o momento em que o espírito se levantou no mundo. Aqui foi ultrapassado o rubicão da criação humana».
(...)
A afirmação de que Deus criou o mundo, afirmação comum ao cristianismo e a outras religiões, não pretende ser uma afirmação científica, no sentido em que esta expressão é hoje entendida. Quererá isto dizer que as explicações científicas e religiosas do mundo são radicalmente diversas, mesmo opostas? A dificuldade em responder a esta questão reside no facto de, por um lado, parecer conveniente distinguir as explicações científicas e religiosas do mundo e, por outro, parecer inconveniente criar um tal dualismo epistemológico que possa ser interpretado como um dualismo ontológico. O aforismo filosófico segundo o qual «distinguir não é separar» é a este propósito muito elucidativo.  
(...)
Um Deus que se inventa? Admitamos que sim... A experiência da fé, muitas vezes, é viver como se esse Deus (inventado?) existisse e ir descobrindo que, afinal, existe mesmo...
(...)
Por outro lado, será necessário rever o vocabulário utilizado nos discursos filosófico e científico tradicionais. Dualismos substancialistas como matéria/espírito, imanência/transcendência, corpo/alma, natural/sobrenatural, bem como as estruturas metafísicas que lhes correspondem, necessitam de uma revisão profunda.
(...)
A corporização das emoções lança alguns desafios à teologia. A alma e o espírito, neste alinhamento, são resultado, de facto, de todas as interacções fisiológicas que o nosso organismo desenvolve e que se efectuam, principalmente, no cérebro. Para o próprio Damásio e para os adeptos da neurobiologia, esta «fisiologização do espírito» não representa qualquer problema. Saber que o amor tem uma sede cerebral não invalida a sua relevância e vitalidade. E a perspectiva de Damásio - entender um cenário material das emoções - não reduz, aliás, a complexidade destas.
Desta verificação até à determinação das relações causa/efeito de toda a emocionalidade vai um passo de gigante. A previsibilidade humana parece não estar escrutinada, nem tão-pouco se lhe augura futuro. Somos seres de relação e teríamos de somar à complexidade da emocionalidade de um ser humano as complexidades dos inúmeros outros seres humanos com quem nos relacionamos. A alma, porventura e sem complexos «incorporada», estará para durar. Talvez os estudos de Damásio e outros equivalentes «empurrem» a teologia para não dicotomizar o corpo e a alma." 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

PERIGOSIDADES


O que é mais perigoso?

A ignorância ou os conhecimentos errados?


domingo, 3 de dezembro de 2017

A NOTÍCIA DAS NOTÍCIAS


Tornou-se possível ultrapassar, em muito, a velocidade da luz.

De tal forma que será possível, facilmente, demorando pouco tempo, atingir locais distantíssimos da Terra - tão distantes que ainda não chegaram lá, à velocidade da luz, as imagens da formação do universo (e todas as outras subsequentes).

Será possível agora, colocando câmaras registadoras em diversos pontos estratégicos do universo, captar a evolução do universo e da história humana, desde os tempos mais recuados até aos nossos dias.

Num só ano poder-se-ão registar, em milhares de milhões de câmaras, as imagens correspondentes ao primeiro ano do universo e a todos os anos seguintes - em câmaras mais longínquas, os primeiros anos; em câmaras sucessivamente mais próximas, todos os outros anos, até hoje.

sábado, 30 de setembro de 2017

AMADEU FERREIRA

Na década de 80, quando estudante na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, ouvi falar de um estudante da noite, consideravelmente mais velho que eu, que era muito bom aluno e facultava cópias dos seus apontamentos manuscritos na secção de folhas da Associação Académica.

Estudei Direito Penal por essas cópias, mas não o conheci pessoalmente. Os apontamentos eram excelentes, desde a respectiva clareza até à legibilidade da caligrafia.

Outros colegas gravavam as aulas, desgravavam-nas e davam-lhe o texto em bruto, que ele depois organizava, daí resultando um texto por ele manuscrito com mais de meio milhar de páginas, que ele entregava na Associação Académica, onde eram fotocopiadas para toda a gente. Centenas de alunos estudaram por essa sebenta.

Naquela sebenta manuscrita o seu nome não aparece; apenas surge o nome do regente (Dr. Rui Pereira, mais tarde Ministro da Administração Interna).

Foi o melhor aluno do seu curso (1985-1990), apresentou no concurso para assistente estagiário um estudo sobre o homicídio privilegiado (1990) e, em 1995, discutiu a dissertação de mestrado intitulada "Valores Mobiliários Escriturais - um novo modo de representação e circulação de direitos". Entretanto, tinha começado a trabalhar na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Em pouco tempo passou de assistente de Direito Penal a regente de Direito dos Valores Mobiliários e foi admitido à preparação da dissertação de doutoramento, que porém suspendeu devido à nomeação para o Conselho Directivo da CMVM.




Natural de Sendim, a partir dos finais dos anos noventa dedicou-se também intensamente à defesa e promoção da língua e cultura mirandesas.

Publicou em mirandês, em seu nome e de vários pseudónimos, os mais diversos géneros literários (romance, conto, teatro, poesia) e traduções.

Traduziu para mirandês, entre outros, dois livros de Astérix, "Os Quatro Evangelhos - Ls Quatro Eibangeillos", e, sob o pseudónimo de Fracisco Niebro, "Os Lusíadas - Ls Lusíadas" e a "Mensagem - Mensaige"de Fernando Pessoa.

Foi Presidente da Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa e da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

Morreu em 2015, com 64 anos. Quatro dias depois da morte foram lançados a sua biografia, "O Fio das Lembranças", de Teresa Martins Marques, e o seu mais recente livro, "Belheç - Velhice", sob o pseudónimo Fracisco Niebro.



Ao ler a sua biografia, descobri que frequentou o seminário entre 1961 e 1972 (de onde foi expulso), participou enquanto militar no 25 de Abril e no 25 de Novembro, e foi fundador e deputado da UDP (tendo feito uma única intervenção no Parlamento, na reunião plenária de 14 de Julho de 1982).

Para terminar, um excerto do livro "Belheç - Velhice", em edição bilingue:

"Há um tempo para nascer e um tempo para morrer.
A alma não pode voar para o céu. Se assim fosse, como podiam nascer coisas novas? Essa é a ressurreição das almas: são vidas novas. São bichinhos, ervinhas e tudo o que vive.
É por isso que fazem mal em sepultar as pessoas no cemitério: deviam enterrá-las pelos campos para ajudar as almas a nascer. Assim, Deus, seja lá ele quem for, tem muito mais trabalho."

" Hai un tiempo para nacer i un tiempo para un se morrer.
L'alma nun puode bolar pa l cielo. Senó, cumo podien nacer cousas nuobas? Essa ye la rucerreiçon de las almas: son bidas nuobas. Son bichicos, arbicas i todo l que bibe.
Ye por esso que fázen mui mal an anterrar las pessonas ne l semitério: habien de las anterrar pul campo para ajudar las almas a nacer. Assi, Dius, seia quien fur, ten muito mais trabalho."

domingo, 17 de setembro de 2017

EPC


Foi um dos intelectuais que marcaram a minha formação.

"Conheci-o" como cronista em O Jornal, como um dos três membros do conselho editorial e colaborador do Jornal de Letras, Artes e Ideias, como crítico de cinema e colaborador no EXPRESSO, como ensaísta (A Noite do Mundo, O Cálculo das Sombras), como escritor do diário Tudo o que não escrevi, como cronista diário no jornal Público com O Fio do Horizonte.

Fez no dia 25 de agosto dez anos que morreu Eduardo Prado Coelho.


                                                    1944 - 2007


Transcrevo o final do primeiro volume do diário Tudo o que não escrevi:


Paris - 28.2.92

(...) Tantas vezes vimos no cinema que até se tornou banal: alguém escorrega para o abismo, em baixo o vale rochoso, o desfiladeiro, o lago das piranhas, o poço eriçado de cobras, a caixa negra do ascensor, e a mão sobrevivente pede a derradeira ajuda. Mais difícil é vivê-lo. Já o meu pai estava doente, definitivamente doente, e conversávamos um dia junto à janela do escritório. Em frente, Monsanto, o jardim da Companhia das Águas, relva, arvoredo. E o meu pai disse: "Venho muitas vezes olhar aquela árvore. Ela dá-me um sentimento de paz." Essa árvore, serena, frondosa, esplêndida, exuberante, passou a ser a morte do meu pai - a sua face diurna. Porque houve outra voltada para o abismo, a mais terrível. O meu pai perguntava por que razão não o levavam a Londres, a mão pedindo que o salvassem. Fui obrigado a dizer-lhe, em nome do médico, que não valia a pena. Mas como é que uma coisa não vale a pena se há uma árvore em frente a rebentar de pássaros verdes? A mão ficou abandonada sobre o lençol, o olhar distraiu-se. Ao regressar a casa, conduzia numa espécie de levitação, guiado apenas pela luz das lágrimas. Nesses tempos, ele lia as Confissões de Santo Agostinho, e as palavras começavam-lhe a ficar inclinadas, trôpegas, desobedientes. Não tenho medo da minha morte, entendes?, mas da morte da árvore, um dia.

                                      "Open then, mine eyes, your double sluice, 
                                      And practise so your noblest use;
                                      For others too can see, or sleep,
                                      But only human eyes can weep.
                                      (...)
                                      Thus let your streams o'erflow your springs,
                                      Till eyes and tears be the same things:
                                      And each the others's difference bears:
                                      This weeping eyes, those seeing tears"

                                                                           ANDREW MARVELL


Paris - 29.2.92

Afinal Miguel Strogoff não era, nunca tinha sido cego. Um fenómeno puramente humano, ao mesmo tempo psíquico e físico, tinha neutralizado a acção da lâmina incandescente que o executor de Feofar havia feito passar diante dos seus olhos.
Lembram-se de que, no momento do suplício, Marfa Strogoff estava lá, estendendo as mãos em direcção ao seu filho. Miguel Strogoff olhava-a como um filho pode olhar a sua mãe, quando é pela última vez. Explodindo em vagas do seu coração para os olhos, as lágrimas, que o seu orgulho tentava em vão reter, acumulavam-se sob as pálpebras, e, volatizando-se na córnea, tinham-lhe salvo a vista. A camada de vapor formada pelas suas lágrimas, interpondo-se entre o sabre ardente e as pupilas, bastara para aniquilar a acção do calor.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AUGUSTO ABELAIRA, TRADUTOR


Augusto Abelaira, além de escritor e jornalista, foi, também, professor e tradutor.

Em 2014 (ou 2015), passeando na Avenida Dom Carlos I, entrei na livraria da Sociedade Guilherme Cossoul e encontrei "O Doutor Jivago", de Boris Pasternak, com tradução de Augusto Abelaira, prefácio de Aquilino Ribeiro e tradução das poesias de David Mourão-Ferreira!!!